Uma pequeníssima, brilhante e delicada semente, fora involuntariamente inseminada nas soalheiras e férteis planícies da mente de Alana.
Todo aquele córtex, ganhara carácter de incubadora, assumindo assim um papel de dispositivo altamente especializado, no que respeitava conceber e proporcionar condições idílicas ao desenvolvimento e maturação do inesperado, improvável e imprevisível.
Desenfreadamente, habitáculos transparentes de esperança foram surgindo, doces, delicados e instáveis.
Como dizia a outra senhora "Todo o cuidado era pouco no caso de frágeis obliterações prematuras".
Requeria-se calma, muita calma.
"Age de modo perseverante e impassível.
Sê cautelosa mas nunca deixes de deslizar graciosa e livremente, nesses nobres e amenos campos de lavanda provençal, onde abundam as mais mágicas inebriantes e caprichosas cores e fragrâncias."
Viver em plenitude mantendo a integridade, até porque o universo nunca para de conspirar.
O deleitoso complexo processo de germinação continua e o árduo, custoso e impertinente ciclo de floração recusa-se a cessar.
As folhas que começam a surgir de modo tímido e acanhado apenas se deixam vaporizar.
Tanto a falta quanto o excesso desta tão peculiar forma de água, são suficientes para matar irreversivelmente as já proeminentes raízes.
Com o passar do tempo, as metástases hão de alastrar-se celeremente como ervas daninhas, e eventualmente apoderar-se-ão, sem ponta de dó ou de piedade, de todos os remanescentes órgãos vitais.
Sê paciente.
quinta-feira, 29 de dezembro de 2016
terça-feira, 29 de novembro de 2016
Olhos no mar
Vazio imenso preenchido por uma solidão libertadora.
Brumas de desespero criadas pela rebentação violenta do
desprazer.
Entropia ondularmente sonora, absorvedora de voos rasteiros
e de sede infinita.
Turbilhão sereno.
Entranhas à superfície.
Sol iluminador da desagregante realidade ilusória.
Número 6.
Corpo entorpecido.
Caracóis rebeldes, dançantes, vagueando ao sabor do vento e
da maresia.
Sentimentos odaliscos, prisioneiros num harém de
convencionalismos.
Águas turvas.
Submundo delicado e
imperceptível.
Tremores irracionais, algures no âmago das mais profundas
incertezas.
E a infame e desditosa espera….
sexta-feira, 18 de novembro de 2016
Enclausurados
Sentimo-nos frequentemente enclausurados.
Ficamos inúmeras vezes retidos nas
amargas e traiçoeiras encruzilhadas da vida.
Não sabemos bem onde estamos, nem
tão pouco temos a certeza de para onde pretendemos ir.
Somos cativos na gaiola de ideias,
princípios, conceitos, noções, juízos e formulações que nós próprios construímos.
Almejamos sair em liberdade mas o
medo que sentimos pelo desconhecido transpõe-se à nossa débil necessidade de
emancipação.
Receamos a total autonomia,
soberania, auto-suficiência e toda a solitude e isolamento que estas acarretam.
Carecemos de arrojo.
Carecemos de determinação.
Por onde andas audácia?
Tenacidade onde te escondeste?
Comemos alpista com sabor a
infortúnio e bebemos do bebedouro do desprazer, enquanto nos vamos levemente
balançando no frágil e cinzento poleiro da insatisfação.
Teimamos em permanecer encerrados,
muito embora até tenhamos a capacidade de vislumbrar ao longe os doces frutos da Primavera que
se avizinha.
Cantamos diante da liberdade.
Quem sabe se para passar o tempo…
Quem sabe se aguardando o momento
mais oportuno para voar…
quinta-feira, 17 de novembro de 2016
Olho metonímico-protónico: TU
Olho metonímico-protónico: TU: Melodia. Cântico celeste. Orquestra. Deslumbrante sonoridade musical. Visão esplendorosa. Magnificência de arco-íris. Fogo de ...
quinta-feira, 3 de novembro de 2016
Metamorfose
Acorda.
Para.
Respira.
Escuta.
Olha.
Sente.
O mundo mudou.
A realidade deturpada dos necróticos conceitos previamente definidos transbordou de vez no rio da clarividência.
O pequeno ovo, frágil e delicado quebrou-se.
A débil larva eclodiu e de modo perfeitamente inócuo alimentou- se vorazmente dos recursos de que dispunha.
Seguiu-se a crisálida, espantoso e intrigante estado de pupa.
Gélido casulo metálico abrigo de processos de introspeção e de maturação.
Armazém de ideias.
Sui generis fábrica repleta de linhas de montagem de mobilidade alada.
Asas.
Emergem dois pares de asas membranosas, cobertas de escamas, alicerces determinantes na jornada que se avizinha.
Liberta-te.
Descola.
Paira.
Plana.
Voa.
Vive.
quarta-feira, 26 de outubro de 2016
A caixa (parte VI)
Wimma era mestre, rainha e senhora de técnicas de ilusão e
dissimulação.
Qual urso polar preto com pelos translúcidos…
Quais biocromos associados a absorção seletiva…
Não!
Considerava a camuflagem absolutamente desleal.
Ao invés disso recorria ao mimetismo.
Sim. Wimma, a caixa, era sem dúvida portadora de características que
evoluíram especificamente para se assemelhar com as de outras espécies.
Interagia directamente com os outros organismos, aparentemente idênticos
e deixava-os simplesmente iludirem-se pelo elevado grau de similaridade que possuíam.
Tão simples quanto isto. Básico processo de evolução convergente, meus
caros.
Esta particular caixinha não procurava dificultar a sua detecção na circunvizinhança.
Muito pelo contrário.
Fazia questão de se fazer notar, de modo vistoso e seguro, exibindo
aquele acintoso olhar característico. Oh, como era encantador aquele sorriso
petulante…
O jogo que jogava era limpo. As cartas eram devidamente embaralhadas e distribuídas
por crupiês com formação especializada no casino da vida. Não procurava de
forma alguma contornar as regras, via processos sugestivos, velhacos, desleais
ou desonestos.
Honra, decoro e dignidade encontravam-se acima de tudo, muito embora
não abdicasse de lançar, sobre pano verde, os seus mais bem guardados trunfos.
terça-feira, 18 de outubro de 2016
A caixa (Parte V)
Ouvira falar de peixes que haviam outrora sucumbido à lenhosa e ardente fogueira do encantamento. Pobres e singelos mortais, cujas brânquias se inflamaram de tal modo, que o processo de hematose chegara a cessar por completo.
Inalaram sofregamente aquela doce e inebriante fragrância de júbilo e quando se aperceberam... Bom, já era tarde demais.
Tombaram simplesmente como rubicundas maçãs maduras em pomares veraneantes.
Pum, caíram e pronto.
Ao que parece, e de acordo com Keller, o limpa fundos de serviço, era algo que até acontecia com significativa frequência.
-Não se brinca com a força da gravidade. - Repetia vezes e vezes sem conta.
-Quem ousa aventurar-se é impreterivelmente mortificado, sem dó nem piedade, por toda uma esmagadora aceleração concomitante.
O empuxo debaixo deste mar é inevitável.
Tão inevitável quanto a morte.
Quando expelimos ou aceleramos uma massa do que quer que seja em determinada direcção, essa mesma massa causará invariavelmente uma força de igual magnitude em sentido oposto.
Não há como evitá-lo - retorquiu.
- É assim porque sim!
Inalaram sofregamente aquela doce e inebriante fragrância de júbilo e quando se aperceberam... Bom, já era tarde demais.
Tombaram simplesmente como rubicundas maçãs maduras em pomares veraneantes.
Pum, caíram e pronto.
Ao que parece, e de acordo com Keller, o limpa fundos de serviço, era algo que até acontecia com significativa frequência.
-Não se brinca com a força da gravidade. - Repetia vezes e vezes sem conta.
-Quem ousa aventurar-se é impreterivelmente mortificado, sem dó nem piedade, por toda uma esmagadora aceleração concomitante.
O empuxo debaixo deste mar é inevitável.
Tão inevitável quanto a morte.
Quando expelimos ou aceleramos uma massa do que quer que seja em determinada direcção, essa mesma massa causará invariavelmente uma força de igual magnitude em sentido oposto.
Não há como evitá-lo - retorquiu.
- É assim porque sim!
segunda-feira, 10 de outubro de 2016
Pântano
Era belo, escuro, tentador e convidativo. Uma enorme depressão de terreno barrento que albergava algumas das mais encantadoras pérolas da existencialidade.
Águas paradas, pouco profundas, suspensas num imenso manto de impermeabilidade dualista, provocado por impertinentes planícies mal drenadas.
Tal como os fascinantes nenúfares que ali se encontravam e se apoderavam do cenário pitoresco, possuía umas quantas folhas submersas, algures no submundo da sua alma e outras tantas livremente flutuantes. As últimas, emanavam uma radiância exuberante e exibiam-se resplandecentemente à tona d’água. Brilhavam pois como petulantes pirilampos bioluminescentes em época de acasalamento. Quanto às alagadas pouco havia a acrescentar. Eram tóxicas e funestas mas ao mesmo tempo parte integrante da sua essência.
A remanescente vegetação era densa. Tão densa quanto os seus mais preciosos e inatingíveis sonhos. Parecia até suportar espontaneamente o peso da sua avultadíssima bagagem nostálgica. Decomposição. Estava a ser invadido por aquela estranha matéria em decomposição, que invariavelmente o penetrava necroticamente e se embrenhava naquele profundo, majestoso e inusitado covil de perdição, caminhando à deriva num fascinante e aterrador pântano de incredulidade e indeterminação.
sábado, 8 de outubro de 2016
A caixa (Parte IV)
Emanava delicadeza gentileza e cortesia.
Nobreza no seu mais puro estado de fusão.
Era simples, muito simples, embora revelasse um soberbo nível de complexidade.
Extasiante. A sua complexidade representava um somatório de particularidades extasiantes.
Fazia parte daquele reduzidíssimo nicho de seres divinamente inebriantes que vivem à margem do inteligível.
Era como que um atraente e arrebatador holograma de perfeição a apenas dois palmos da realidade. Inacreditável.
Betta estava perplexo. Apenas detectara todo esse magnetismo graças à sua vasta rede de sensores.
Embora se encontrassem em inactividade há anos e anos ,constatara que ainda desempenhavam o seu papel da melhor forma. Arcaicos e rudimentares talvez mas não obsoletos. O que interpretara inicialmente como sendo uma inconveniente interferência, ou um mero ruido de fundo, era afinal aquilo que tanto almejara.
Felizmente, os minuciosos dispositivos por ele criados, conseguiram captar e responder mensurável e analogicamente aquela faustosa entropia de estímulos sensoriais.
Mal podia acreditar.
Era real.
Era quase palpável. E com isso, aquele doce rasto deslizava no interior dos seus pensamentos, do mesmo modo que os mais bem treinados patins deslizam num grandioso rinque de patinagem. Meiga e suavemente quebravam sem custo o gelo da sua alma e dilaceravam de modo simples e espontâneo as trancas do seu coração.
Nobreza no seu mais puro estado de fusão.
Era simples, muito simples, embora revelasse um soberbo nível de complexidade.
Extasiante. A sua complexidade representava um somatório de particularidades extasiantes.
Fazia parte daquele reduzidíssimo nicho de seres divinamente inebriantes que vivem à margem do inteligível.
Era como que um atraente e arrebatador holograma de perfeição a apenas dois palmos da realidade. Inacreditável.
Betta estava perplexo. Apenas detectara todo esse magnetismo graças à sua vasta rede de sensores.
Embora se encontrassem em inactividade há anos e anos ,constatara que ainda desempenhavam o seu papel da melhor forma. Arcaicos e rudimentares talvez mas não obsoletos. O que interpretara inicialmente como sendo uma inconveniente interferência, ou um mero ruido de fundo, era afinal aquilo que tanto almejara.
Felizmente, os minuciosos dispositivos por ele criados, conseguiram captar e responder mensurável e analogicamente aquela faustosa entropia de estímulos sensoriais.
Mal podia acreditar.
Era real.
Era quase palpável. E com isso, aquele doce rasto deslizava no interior dos seus pensamentos, do mesmo modo que os mais bem treinados patins deslizam num grandioso rinque de patinagem. Meiga e suavemente quebravam sem custo o gelo da sua alma e dilaceravam de modo simples e espontâneo as trancas do seu coração.
segunda-feira, 3 de outubro de 2016
A caixa (parte III)
Por mais que procurasse aproximar-se e perscrutar o interior da misteriosa caixinha, Betta não conseguia enxergar o que quer que fosse.
Rondara inúmeras vezes a região em que esta se encontrava, comedida e cautelosamente, em largos movimentos circulares ascendentes mas… nada.
A caixa parecia ser impenetrável. Quanto mais se aproximava, mais inacessível esta se tornava e mais se desvanecia o seu doce e sereno murmurar.
Esta intrigante caixinha não se deixava impressionar por ocasiões e circunstancias soalheiras mas antes pela amena humidade do crepúsculo.
A sua essência recolhia-se para dentro de uma redoma opaca, tal como um caracol mole e carnudo se recolhe na sua concha em situações de adversidade, dissimulando deste modo qualquer remanescente vestígio da sua existência.
Embora em torno de Betta tudo parecesse assumir contornos francamente misteriosos, a curiosidade e a perseverança teimavam em não o abandonar.
De modo sorrateiro e em jeito travesso, decidira continuar paulatinamente a sua busca, aguardando quem sabe, que os castelos de areia começassem a ceder.
Rondara inúmeras vezes a região em que esta se encontrava, comedida e cautelosamente, em largos movimentos circulares ascendentes mas… nada.
A caixa parecia ser impenetrável. Quanto mais se aproximava, mais inacessível esta se tornava e mais se desvanecia o seu doce e sereno murmurar.
Esta intrigante caixinha não se deixava impressionar por ocasiões e circunstancias soalheiras mas antes pela amena humidade do crepúsculo.
A sua essência recolhia-se para dentro de uma redoma opaca, tal como um caracol mole e carnudo se recolhe na sua concha em situações de adversidade, dissimulando deste modo qualquer remanescente vestígio da sua existência.
Embora em torno de Betta tudo parecesse assumir contornos francamente misteriosos, a curiosidade e a perseverança teimavam em não o abandonar.
De modo sorrateiro e em jeito travesso, decidira continuar paulatinamente a sua busca, aguardando quem sabe, que os castelos de areia começassem a ceder.
quarta-feira, 28 de setembro de 2016
A caixa (parte II)
De um momento para o outro, esfumara-se por completo todo o seu carácter ectotérmico. Uma minúscula chama ganhara vida no seu interior e logo tratara de estabilizar tudo o que de instável e de irregular ali existira outrora.
Betta, rodopiava alegremente naquelas recém-oxigenadas águas, purificadas pela turbulenta agitação daquela ribombante melodia.
A sua cauda azul-cobalto, em forma de véu, com reflexos em turquesa, ardósia e ametista, brilhava intensamente à medida que rompia a barreira fluida do espaço-tempo.
Experienciava uma incontrolável sinestesia, que lhe parecia ser causada por um vasto rol de fenómenos inexplicáveis, provavelmente provocados por alguma enigmática e indefinível condição neurológica.
Nadar.
Ele só queria nadar.
Nadar e rodopiar.
Rodopiar e piruetar.
Piruetar e nadar.
Betta, rodopiava alegremente naquelas recém-oxigenadas águas, purificadas pela turbulenta agitação daquela ribombante melodia.
A sua cauda azul-cobalto, em forma de véu, com reflexos em turquesa, ardósia e ametista, brilhava intensamente à medida que rompia a barreira fluida do espaço-tempo.
Experienciava uma incontrolável sinestesia, que lhe parecia ser causada por um vasto rol de fenómenos inexplicáveis, provavelmente provocados por alguma enigmática e indefinível condição neurológica.
Nadar.
Ele só queria nadar.
Nadar e rodopiar.
Rodopiar e piruetar.
Piruetar e nadar.
Nadar, vaguear e devanear.
segunda-feira, 26 de setembro de 2016
A caixa (parte I)
E algures, no fundo do baú obscuro de todas aquelas dúvidas e incertezas, algo reluzira lustrosamente.
Hermeticamente fechada e por baixo de forros, cobertas, faixas e ataduras onerosamente sufocantes, jazia uma caixinha perfeitamente trivial.
Caracterizada essencialmente pela despretensiosidade, a modesta canastra parecia procurar segredar-lhe algo deveras revelador.
Tardou a escutá-la, já que a atenção não era o seu forte mas a dada altura, para sua grande admiração, a caixinha começara a cantarolar alto, muito alto, num timbre estranhamente harmonioso e cativante.
Ganhara tais proporções aquele inusitado bramido, que como que se de uma revelação se tratasse, tivera a nítida certeza de que o que daí adviria, estaria prestes a ganhar contornos francamente imaculados.
Hermeticamente fechada e por baixo de forros, cobertas, faixas e ataduras onerosamente sufocantes, jazia uma caixinha perfeitamente trivial.
Caracterizada essencialmente pela despretensiosidade, a modesta canastra parecia procurar segredar-lhe algo deveras revelador.
Tardou a escutá-la, já que a atenção não era o seu forte mas a dada altura, para sua grande admiração, a caixinha começara a cantarolar alto, muito alto, num timbre estranhamente harmonioso e cativante.
Ganhara tais proporções aquele inusitado bramido, que como que se de uma revelação se tratasse, tivera a nítida certeza de que o que daí adviria, estaria prestes a ganhar contornos francamente imaculados.
sábado, 10 de setembro de 2016
Repressão
Vivemos em constante repressão.
Não passamos de insignificantes partículas de gás, em permanente e aleatório movimento, encerradas numa caixa em que cuja pressão exercida sobre o exterior, provocada pelas constantes colisões da vida, pouco ou nada mossa.
Deixamo-nos reger pela triste inibição consciente e espontânea do desejo.
Vivemos em consumado acto de subordinação.
Castigo? Punição? Controle ou penalização?
A realidade é que o excesso acrescido de coação exercida pelo mundo exterior, esmaga o êmbolo dos desígnios divinos e destrói tudo, inclusivamente o já apenas vestigial equilíbrio remanescente.
O processo de escoamento avista-se ao longe. Bem ao longe. Raramente emergem gradientes de temperatura e os volumes, esses, pouco ou nada variam.
Maldito destino sentenciador.
Não passamos de insignificantes partículas de gás, em permanente e aleatório movimento, encerradas numa caixa em que cuja pressão exercida sobre o exterior, provocada pelas constantes colisões da vida, pouco ou nada mossa.
Deixamo-nos reger pela triste inibição consciente e espontânea do desejo.
Vivemos em consumado acto de subordinação.
Castigo? Punição? Controle ou penalização?
A realidade é que o excesso acrescido de coação exercida pelo mundo exterior, esmaga o êmbolo dos desígnios divinos e destrói tudo, inclusivamente o já apenas vestigial equilíbrio remanescente.
O processo de escoamento avista-se ao longe. Bem ao longe. Raramente emergem gradientes de temperatura e os volumes, esses, pouco ou nada variam.
Maldito destino sentenciador.
segunda-feira, 15 de agosto de 2016
Felicidade e liberdade
São estes os determinantes e indissociáveis binómios gestores de vidas. São eles que caminham serenamente e de mãos dadas, nas sui generis noites de neblina.
Toda uma interpretação de objectivos, todo um planeamento estratégico e operacional, toda uma organização e toda uma direcção a seguir rumo ao que quer que seja, depende destes dois conceitos chave.
Tudo o que nos rodeia advém desta estranha simbiose não protocooperada.
Apenas provamos o doce travo da verdadeira satisfação e contentamento, quando caminhamos vitoriosa e afortunadamente nas sinistras e enigmáticas ruas do livre-arbítrio. Contudo, este parece insistir obstinadamente em esconder-se de nós, nas umbríferas sombras dos becos mais recatados, concedendo-nos quase que unicamente a possibilidade de contemplar a sua esguia e impostora silhueta.
Esta ludibriadora cabra cega só se dá, devido à própria conotação subjetivista e paradoxal dessas chamadas livres decisões.
Teremos de facto acesso a escolher objectos, caminhos, filosofias e condutas ou não passarão afinal essas supostas alternativas, de complexas e apetrechadas máscaras dissimuladoras da realidade? E qual será o papel da causalidade no meio de tudo isto? Por que será que embora façam furor muitas das teorias deterministas, são sem dúvida as estocásticas que mais aprazem as vivências humanas?
Bom, se alguma destas noções realmente existir, poderá afirmar-se que felicidade é liberdade.
Toda uma interpretação de objectivos, todo um planeamento estratégico e operacional, toda uma organização e toda uma direcção a seguir rumo ao que quer que seja, depende destes dois conceitos chave.
Tudo o que nos rodeia advém desta estranha simbiose não protocooperada.
Apenas provamos o doce travo da verdadeira satisfação e contentamento, quando caminhamos vitoriosa e afortunadamente nas sinistras e enigmáticas ruas do livre-arbítrio. Contudo, este parece insistir obstinadamente em esconder-se de nós, nas umbríferas sombras dos becos mais recatados, concedendo-nos quase que unicamente a possibilidade de contemplar a sua esguia e impostora silhueta.
Esta ludibriadora cabra cega só se dá, devido à própria conotação subjetivista e paradoxal dessas chamadas livres decisões.
Teremos de facto acesso a escolher objectos, caminhos, filosofias e condutas ou não passarão afinal essas supostas alternativas, de complexas e apetrechadas máscaras dissimuladoras da realidade? E qual será o papel da causalidade no meio de tudo isto? Por que será que embora façam furor muitas das teorias deterministas, são sem dúvida as estocásticas que mais aprazem as vivências humanas?
Bom, se alguma destas noções realmente existir, poderá afirmar-se que felicidade é liberdade.
quarta-feira, 3 de agosto de 2016
Radio silence
Todas as transmissões cessaram.
A comunicação bidireccional via transcepção de dados e informações, previamente codificados em sinais eletromagnéticos, deu lugar à unidireccionalidade telepática da concepção.
Interferências de natureza esotérica e oculta, assolaram a estação de radiocomunicação, quebrando qualquer tipo de singelo contacto à distância.
As posições deixaram de ser reveladas e as direcções afundaram-se novamente no imenso e profundo mar das obtusas incertezas.
A radiodifusão, com as suas ondas moduladas cuja propagação findou no espaço, amplificou o paquidérmico vazio arbitrário do real e do imaginário.
As razões, essas, permanecem incógnitas.
Questões de segurança, ou de insegurança? Defesa contra intercepção de dados? Indiferença deliberada? Quem sabe…
Ficou tudo novamente em aberto.
A comunicação bidireccional via transcepção de dados e informações, previamente codificados em sinais eletromagnéticos, deu lugar à unidireccionalidade telepática da concepção.
Interferências de natureza esotérica e oculta, assolaram a estação de radiocomunicação, quebrando qualquer tipo de singelo contacto à distância.
As posições deixaram de ser reveladas e as direcções afundaram-se novamente no imenso e profundo mar das obtusas incertezas.
A radiodifusão, com as suas ondas moduladas cuja propagação findou no espaço, amplificou o paquidérmico vazio arbitrário do real e do imaginário.
As razões, essas, permanecem incógnitas.
Questões de segurança, ou de insegurança? Defesa contra intercepção de dados? Indiferença deliberada? Quem sabe…
Ficou tudo novamente em aberto.
sexta-feira, 8 de julho de 2016
Alimentadores de alma
Os alimentadores de alma, impregnam-nos o espírito de benevolência e de bons propósitos.
Quando tudo desaba, quando se perde o norte, quando já não sabemos quem somos, são eles que nos orientam e que nos guiam, de modo a encontrar-nos novamente.
Põem-nos de volta no rumo certo, ajudando-nos a percorrer os trilhos mais sinuosos dos limites da desagregação e da incompreensão, com toda a sua nobre sobriedade característica.
São os guias turísticos das contrariedades e incertezas da vida, que garantem todo um acompanhamento físico-emocional, prestando informações sobre as manifestações culturais e geográficas das regiões mais impenetráveis e intransponíveis dos confins do id, ego e superego.
Conferem-nos toda uma assistência, um amparo, uma consolação.
São o auditório, a plateia e a audiência.
A personificação da cooperação e do assessoramento.
São as ambulâncias, os prontos-socorros, os desfibrilhadores, as injeções de adrenalina.
São o báculo nos momentos de fragmentação, que corrigem as deformações de caminho que nos levam ao abismo, desviando-nos meiga e delicadamente para a luz.
Socorrem-nos ainda das caídas e recaídas em fendas e precipícios existenciais, puxando-nos para cima com as suas pródigas e ternurentas mãos umbráticas.
Cajados. Os enchedores de alma são cajados, construídos com madeiras retiradas de pesares mortos, que para além de nos protegerem e de repelirem com afinco o que de mal nos atormenta, rogam por nós aos espíritos da floresta negra das incertezas e das tormentas.
Geram todo um campo magnético indelével, que nos ajuda a estabilizar emoções, a curar doenças e que nos confere acima de tudo um tipo muito particular de proteção anímico-espiritual.
São armaduras metálicas de compreensão, compostas por camadas e camadas de couro de discernimento e acolchoamentos de razoabilidade e de bom senso.
São reis da prudência e lordes da circunspeção.
São os tudos que preenchem os inúmeros nadas.
São os que, à falta de melhor designação, frequentemente chamamos amigos.
Quando tudo desaba, quando se perde o norte, quando já não sabemos quem somos, são eles que nos orientam e que nos guiam, de modo a encontrar-nos novamente.
Põem-nos de volta no rumo certo, ajudando-nos a percorrer os trilhos mais sinuosos dos limites da desagregação e da incompreensão, com toda a sua nobre sobriedade característica.
São os guias turísticos das contrariedades e incertezas da vida, que garantem todo um acompanhamento físico-emocional, prestando informações sobre as manifestações culturais e geográficas das regiões mais impenetráveis e intransponíveis dos confins do id, ego e superego.
Conferem-nos toda uma assistência, um amparo, uma consolação.
São o auditório, a plateia e a audiência.
A personificação da cooperação e do assessoramento.
São as ambulâncias, os prontos-socorros, os desfibrilhadores, as injeções de adrenalina.
São o báculo nos momentos de fragmentação, que corrigem as deformações de caminho que nos levam ao abismo, desviando-nos meiga e delicadamente para a luz.
Socorrem-nos ainda das caídas e recaídas em fendas e precipícios existenciais, puxando-nos para cima com as suas pródigas e ternurentas mãos umbráticas.
Cajados. Os enchedores de alma são cajados, construídos com madeiras retiradas de pesares mortos, que para além de nos protegerem e de repelirem com afinco o que de mal nos atormenta, rogam por nós aos espíritos da floresta negra das incertezas e das tormentas.
Geram todo um campo magnético indelével, que nos ajuda a estabilizar emoções, a curar doenças e que nos confere acima de tudo um tipo muito particular de proteção anímico-espiritual.
São armaduras metálicas de compreensão, compostas por camadas e camadas de couro de discernimento e acolchoamentos de razoabilidade e de bom senso.
São reis da prudência e lordes da circunspeção.
São os tudos que preenchem os inúmeros nadas.
São os que, à falta de melhor designação, frequentemente chamamos amigos.
quarta-feira, 22 de junho de 2016
Tempestade (parte VI)
Após meses e meses de navegação à bolina, a embarcação encontrara finalmente uma paz divina, que lhe fora conferida, como que à sorte, pelos ilustres Deuses anemófilos.
Ao largo da ilha não existia mais qualquer tipo de vento predominante.
As vergas, presas aos mastros através de um complexo sistema de cabos, não oscilavam um único milímetro, o que tornava impossível o simples processo de bracear.
Qualquer tentativa de monitorização de correntes de superfície e de agitação marítima era absolutamente infrutífera.
De um momento para o outro, tudo ficou em suspenso e durante o alvorecer do crepúsculo, tudo se apaziguou fleumaticamente.
Cessaram os odores ralos, florais, acres e edulcorados, as cores ténues, subtis, garridas e vibrantes, tudo. Foi tudo suprimido, naquele ensejo bizarro e insólito.
Era quase como que o triangulo das Bermudas, rei dos fenómenos inexplicáveis, um insondável mistério que se precipitava à velocidade da luz.
Forças magnéticas invulgares, túneis do tempo intrincados, enigmáticas ocorrências extraterrestres, obscuros mecanismos paranormais ou qualquer outro tipo de fenómeno metafísico ininteligível.
O tempo parara, e tal como gritara severamente o capitão, era hora de ancorar!
Ao largo da ilha não existia mais qualquer tipo de vento predominante.
As vergas, presas aos mastros através de um complexo sistema de cabos, não oscilavam um único milímetro, o que tornava impossível o simples processo de bracear.
Qualquer tentativa de monitorização de correntes de superfície e de agitação marítima era absolutamente infrutífera.
De um momento para o outro, tudo ficou em suspenso e durante o alvorecer do crepúsculo, tudo se apaziguou fleumaticamente.
Cessaram os odores ralos, florais, acres e edulcorados, as cores ténues, subtis, garridas e vibrantes, tudo. Foi tudo suprimido, naquele ensejo bizarro e insólito.
Era quase como que o triangulo das Bermudas, rei dos fenómenos inexplicáveis, um insondável mistério que se precipitava à velocidade da luz.
Forças magnéticas invulgares, túneis do tempo intrincados, enigmáticas ocorrências extraterrestres, obscuros mecanismos paranormais ou qualquer outro tipo de fenómeno metafísico ininteligível.
O tempo parara, e tal como gritara severamente o capitão, era hora de ancorar!
sábado, 18 de junho de 2016
Tempestade (parte V)
Certa noite, intensificaram-se os murmúrios.
Um ruído surdo, desconexo e incongruente apoderou-se do convés sem pedir licença, fazendo com que todos marujos se sentissem seriamente perturbados, sem que na realidade soubesse porquê.
Ventos uivantes açoitavam vigorosamente as rochas, e reverberavam imagens do passado, ao incorporarem-se nas águas agitadas balançantes.
O som suave e agudo resultante, associado ao bulício proveniente da ilha ali já tão perto, gerava pois, todo um misto de nostalgia e de consternação.
O ramalhar das árvores gimnospérmicas e dos mansos e estéreis arbustos, era suficiente para perfurar deliberadamente o peito de cada homem e atrasar-lhe os batimentos cardíacos por cinco ou seis segundos.
As dúvidas e desconfianças instauravam-se novamente.
Os marinheiros, até então fortes e inabaláveis, vacilavam como donzelas espavoridas em noite de núpcias.
Todo aquele tinido parcialmente abafado pela surdina do solo, alertava-os e relembrava-os de todos os perigos em que poderiam incorrer, naquele agridoce paraíso repleto de duplicidade.
Contudo, já era tarde demais.
Todas as coordenadas geográficas já haviam sido traçadas.
Voltar atrás não era mais uma opção.
Um ruído surdo, desconexo e incongruente apoderou-se do convés sem pedir licença, fazendo com que todos marujos se sentissem seriamente perturbados, sem que na realidade soubesse porquê.
Ventos uivantes açoitavam vigorosamente as rochas, e reverberavam imagens do passado, ao incorporarem-se nas águas agitadas balançantes.
O som suave e agudo resultante, associado ao bulício proveniente da ilha ali já tão perto, gerava pois, todo um misto de nostalgia e de consternação.
O ramalhar das árvores gimnospérmicas e dos mansos e estéreis arbustos, era suficiente para perfurar deliberadamente o peito de cada homem e atrasar-lhe os batimentos cardíacos por cinco ou seis segundos.
As dúvidas e desconfianças instauravam-se novamente.
Os marinheiros, até então fortes e inabaláveis, vacilavam como donzelas espavoridas em noite de núpcias.
Todo aquele tinido parcialmente abafado pela surdina do solo, alertava-os e relembrava-os de todos os perigos em que poderiam incorrer, naquele agridoce paraíso repleto de duplicidade.
Contudo, já era tarde demais.
Todas as coordenadas geográficas já haviam sido traçadas.
Voltar atrás não era mais uma opção.
quarta-feira, 15 de junho de 2016
Telhados de emoções
Conceberia telhados de emoções.
Coberturas edificadas de sentimentos, cuja função primordial assentaria em proteger o templo sagrado de cada um, das mais diversificadas intempéries exteriores.
Criá-los-ia de múltiplas formas, cores, feitios, uns mais altos outros mais baixos, simples ou sobrepostos, com telhas opacas ou translucidas, de barro, zinco ou vidro; telhados de palha; toda uma infinidade de opções para toda uma vastidão de complexidades.
Impermeabilizaria a cobertura destes templos, fora da época das chuvas, longe dos turbilhões intempestivos das relações humanas, fazendo uso de uma trama de coragem, quadriculado constituído de terças, caibros e ripas, que se apoiariam sobre a armação e que, por sua vez, serviriam de apoio às telhas do infortúnio.
Fixaria, cuidadosamente, cada uma destas últimas, com silicone de arrojo ou com argamassa de determinação, de modo a proteger a nave da exposição solar das injúrias e de todos os restantes agentes deteriorantes associados ao ultraje, que promovem o seu tão temível desgaste.
Manter-me-ia permanentemente atenta aos cupins, célebres isópteros da maldade, evitando assim, que estes consumissem as madeiras de sustentação e causassem o deslocamento das unidades básicas de apoio.
Monitorizaria assiduamente toda a área interior, procurando goteiras de desalento, ou vestígios de infiltrações de agonia pelas lajes a dentro, até encontrar e exterminar, o pútrido mofo destruidor de almas.
Protegeria a fortaleza com unhas e dentes, impedindo todo e qualquer ato de barbárie, selvageria ou de profanação.
Fá-lo-ia com determinação.
Fá-lo-ia de bom grado.
Fá-lo-ia se pudesse.
Fá-lo-ia se todos os alicerces necessários existissem e estivessem ao meu alcance.terça-feira, 14 de junho de 2016
Lobo solitário
Com uma baixa necessidade de afiliação, e o mesmo nível de aceitação, emulsiona-se no mundo de forma peculiar, como que se de um processo termodinamicamente instável se tratasse.
Foca-se nos seus próprios valores e ideais e por vezes, chega mesmo a parecer que é estimulado pela solidão.
Uiva, não para se integrar e obter companhia mas sim para se afirmar.
Embora não decline por completo as interações sociais, estas parecem drená-lo, da mesma forma que os tubos, túneis, canais e valas, auxiliam o processo de escoamento de águas, acumuladas em terrenos encharcados.
Reconhece a importância da alcateia mas despreza no entanto, toda e qualquer organização hierárquica, assim como o cumprimento de tarefas e seguimento de normas e convencionalismos infundados.
É um líder nato, num mundo que não pretende nortear.
É sorrateiro, ardiloso e frequentemente menosprezado por membros menos astutos da agremiação.
Possuidor de um orgulho cintilante que lhe é característico, mantém-se sempre fiel à sua natureza distinta, consagrando deste modo todas as suas lutas e vivências laboriosas.
É ainda selvagem. Domesticá-lo seria inconcebível. Um erro crasso! Isto já para não mencionar que tal tentativa apenas o repeliria perpetuamente.
O lobo não vive enjaulado mas livre. Goza de toda uma autonomia, soberania e emancipação pungentes.
Caminha só, nas planícies da incerteza e do incógnito mas vai seguro.
Foca-se nos seus próprios valores e ideais e por vezes, chega mesmo a parecer que é estimulado pela solidão.
Uiva, não para se integrar e obter companhia mas sim para se afirmar.
Embora não decline por completo as interações sociais, estas parecem drená-lo, da mesma forma que os tubos, túneis, canais e valas, auxiliam o processo de escoamento de águas, acumuladas em terrenos encharcados.
Reconhece a importância da alcateia mas despreza no entanto, toda e qualquer organização hierárquica, assim como o cumprimento de tarefas e seguimento de normas e convencionalismos infundados.
É um líder nato, num mundo que não pretende nortear.
É sorrateiro, ardiloso e frequentemente menosprezado por membros menos astutos da agremiação.
Possuidor de um orgulho cintilante que lhe é característico, mantém-se sempre fiel à sua natureza distinta, consagrando deste modo todas as suas lutas e vivências laboriosas.
É ainda selvagem. Domesticá-lo seria inconcebível. Um erro crasso! Isto já para não mencionar que tal tentativa apenas o repeliria perpetuamente.
O lobo não vive enjaulado mas livre. Goza de toda uma autonomia, soberania e emancipação pungentes.
Caminha só, nas planícies da incerteza e do incógnito mas vai seguro.
quinta-feira, 9 de junho de 2016
Tempestade (parte IV)
O mar, cerúleo, estava plácido e sereno.
À distância a que se encontravam, considerável do ponto de vista físico mas curtíssima em proximidade transcendente, bastava apenas respirar-se, calma e profundamente, para que todo aquele eflúvio voltasse.
Odor adocicado, frondoso, bravio, penetrante.
Fresca amálgama ardente de que é composto o elixir da vida.
Muito poucas palavras conseguiriam descrever exatamente as sensações difusas que o cheiro a éden lhes trazia de volta.
Desejo.
Magnetismo.
Arrebatamento.
Êxtase.
Impermisto vínculo inquebrável.
E assim, de modo incansável, essa preciosa fragrância envolvente, continuava a bombardear, com resoluta perseverança, os já debilitados corpos dos membros tripulantes.
– Até quando aguentaremos esta tortura? – Perguntavam-se os lobos-do-mar.
– Até quando? – Bradavam aos céus.
E as respostas acres continuavam sem surgir mas o odor desconcertante, esse sim, persistia em martirizá-los.
À distância a que se encontravam, considerável do ponto de vista físico mas curtíssima em proximidade transcendente, bastava apenas respirar-se, calma e profundamente, para que todo aquele eflúvio voltasse.
Odor adocicado, frondoso, bravio, penetrante.
Fresca amálgama ardente de que é composto o elixir da vida.
Muito poucas palavras conseguiriam descrever exatamente as sensações difusas que o cheiro a éden lhes trazia de volta.
Desejo.
Magnetismo.
Arrebatamento.
Êxtase.
Impermisto vínculo inquebrável.
E assim, de modo incansável, essa preciosa fragrância envolvente, continuava a bombardear, com resoluta perseverança, os já debilitados corpos dos membros tripulantes.
– Até quando aguentaremos esta tortura? – Perguntavam-se os lobos-do-mar.
– Até quando? – Bradavam aos céus.
E as respostas acres continuavam sem surgir mas o odor desconcertante, esse sim, persistia em martirizá-los.
Tempestade (parte III)
A simples ideia de pisar mais uma vez a terra prometida, traz um novo alento ao corpo embarcadiço.
É como que se todos os sentidos se fossem gradualmente aprimorando, para legitimarem a almejada e triunfante chegada.
O sol, por exemplo, deixa de queimar os insípidos corpos encarquilhados, passando antes a brindá-los, gentilmente, com o seu fulgor repleto de luminosidade.
O próprio espectro eletromagnético alastra-se indefinidamente, desafiando todas as leis da física, da química, da matemática e a luz visível apodera-se de tudo o que existe. Quais, comprimentos de onda, frequências, velocidades de propagação…
Nada disso importa.
Relevante mesmo, só é o modo como ela incide no passado e se reflete no presente, acentuando os mais belos contornos do futuro.
Tudo parece voltar a ganhar nitidez.
É como que se todos os sentidos se fossem gradualmente aprimorando, para legitimarem a almejada e triunfante chegada.
O sol, por exemplo, deixa de queimar os insípidos corpos encarquilhados, passando antes a brindá-los, gentilmente, com o seu fulgor repleto de luminosidade.
O próprio espectro eletromagnético alastra-se indefinidamente, desafiando todas as leis da física, da química, da matemática e a luz visível apodera-se de tudo o que existe. Quais, comprimentos de onda, frequências, velocidades de propagação…
Nada disso importa.
Relevante mesmo, só é o modo como ela incide no passado e se reflete no presente, acentuando os mais belos contornos do futuro.
Tudo parece voltar a ganhar nitidez.
quarta-feira, 8 de junho de 2016
Tempestade (parte II)
Nisto, durante a passagem do ciclone, o comandante outrora entorpecido, num rasgo de inspiração intempestiva gritou audazmente: - Leme a estibordo .
Todos os tripulantes do navio tremeram e titubearam no convés.
Já não navegavam em cabotagem, sem perder a costa de vista, mas sim em águas profundas e desconhecidas em pleno alto mar.
Embora todo este carácter tétrico, sobressaltasse e aterrorizasse até a mais valente das almas, todos sem excepção, cumpriram com afinco as tarefas a cada um destinadas.
A noção de dever impulsionou estes marujos a efetivar o imprescindível.
Tal como um relógio de precisão, surgiu de um lado a mola principal que impulsiona a força para girar o ponteiro e do outro lado, o escape, que proporciona o balanço necessário para equilibrar essa mesma força.
-A caminho – comunicou com entusiasmo o timoneiro, logo que se conseguiu firmar no rumo ordenado, com o leme praticamente a meio.
E assim, de um momento para o outro, como que de magia se tratasse, a decrépita e deteriorada embarcação ganhou vida.
O ar vindo de cima do mastro afundou-se, e com ele toda uma nova estabilidade iminente suprimiu os movimentos ascendentes, necessários à formação de nuvens e precipitação.
O tempo suavizou-se, tornou-se limpo e os primeiros raios de sol despontaram.
Avista-se ao longe uma praia paradisíaca, quem sabe real, quem sabe imaginária.
Todos os tripulantes do navio tremeram e titubearam no convés.
Já não navegavam em cabotagem, sem perder a costa de vista, mas sim em águas profundas e desconhecidas em pleno alto mar.
Embora todo este carácter tétrico, sobressaltasse e aterrorizasse até a mais valente das almas, todos sem excepção, cumpriram com afinco as tarefas a cada um destinadas.
A noção de dever impulsionou estes marujos a efetivar o imprescindível.
Tal como um relógio de precisão, surgiu de um lado a mola principal que impulsiona a força para girar o ponteiro e do outro lado, o escape, que proporciona o balanço necessário para equilibrar essa mesma força.
-A caminho – comunicou com entusiasmo o timoneiro, logo que se conseguiu firmar no rumo ordenado, com o leme praticamente a meio.
E assim, de um momento para o outro, como que de magia se tratasse, a decrépita e deteriorada embarcação ganhou vida.
O ar vindo de cima do mastro afundou-se, e com ele toda uma nova estabilidade iminente suprimiu os movimentos ascendentes, necessários à formação de nuvens e precipitação.
O tempo suavizou-se, tornou-se limpo e os primeiros raios de sol despontaram.
Avista-se ao longe uma praia paradisíaca, quem sabe real, quem sabe imaginária.
segunda-feira, 6 de junho de 2016
Tempestade (parte I)
O subtil e amistoso chilrear dos pardais provindo do cume dos plátanos, as belas folhas das árvores caducifólias após aparecimento da floração, o bafo quente e seco amenizado pela presença de hodiernos nebulizadores, acompanhado do doce e refrescante sabor da felicidade, marcaram a mansa calma dissimulada que antecede as grandes tempestades.
Quem diria.
As límpidas e fleumáticas águas da fonte, portadoras de uma beleza singular, agitaram-se de tal modo, que toda aquela forte e pavorosa energia estático- dinâmica, gerou não só a sua eletrólise mas também a de todos os corpos remanescentes.
Todo um festival de trovões ribombantes, precedido de curtos relâmpagos tenebrosos, anunciou o prelúdio de um angustiante desenrolar kafkiano.
O sufoco, a ansiedade, a insegurança e a inquietação apoderaram-se da ocorrência, surgindo uma implosão explosiva, com direito a deflagração, ondas supersónicas e tudo o mais a que tinha direito.
Assim, sem mais nem menos, nasceu um pulveroso rebuliço emocional.
Quem diria.
As límpidas e fleumáticas águas da fonte, portadoras de uma beleza singular, agitaram-se de tal modo, que toda aquela forte e pavorosa energia estático- dinâmica, gerou não só a sua eletrólise mas também a de todos os corpos remanescentes.
Todo um festival de trovões ribombantes, precedido de curtos relâmpagos tenebrosos, anunciou o prelúdio de um angustiante desenrolar kafkiano.
O sufoco, a ansiedade, a insegurança e a inquietação apoderaram-se da ocorrência, surgindo uma implosão explosiva, com direito a deflagração, ondas supersónicas e tudo o mais a que tinha direito.
Assim, sem mais nem menos, nasceu um pulveroso rebuliço emocional.
sexta-feira, 27 de maio de 2016
Refogado
Ao ralo fio de azeite da curiosidade, adicionou-se a inocência e a candura finamente picadas e regou-se tudo com um inebriante vinho meio-seco, encorpado e voluptuoso.
Seguiu-se a carne. Ai, a carne.
Pedaço de músculo, corte barato. Fibras musculares e tecidos conjuntivos, quase que propositadamente escolhidos, dos destroços de um matadouro em ruínas, com o intuito de gelatinizar o colagénio da alma durante a calcinação.
Ferveu. Oh, como ferveu!
Pedaços firmes, vigorosos e inflexíveis, que se foram vagarosamente deformando, ao som do fugaz borbulhar do preparado. Horas e horas de zelo, tenacidade e devoção. Veraz e fidedigna entrega total.
Delírio.
Euforia.
Excentricidade.
Efervescência indomável, proveniente das enigmáticas entranhas da fermentação anaeróbia do sentimento.
Dias, semanas, meses, anos… O tempo escoa.
O lume, outrora alto, dá lugar a um ameno braseiro e com ele toda uma nova cognição vem ao de cima.
Enquanto a água evapora, o duro é amaciado e o caldo ganha textura e profundidade.
O resultado não poderá deixar de ser um aromático, suculento e delicioso molho de nostalgias adensadas pelo tempo.
Ai, o tempo...
Seguiu-se a carne. Ai, a carne.
Pedaço de músculo, corte barato. Fibras musculares e tecidos conjuntivos, quase que propositadamente escolhidos, dos destroços de um matadouro em ruínas, com o intuito de gelatinizar o colagénio da alma durante a calcinação.
Ferveu. Oh, como ferveu!
Pedaços firmes, vigorosos e inflexíveis, que se foram vagarosamente deformando, ao som do fugaz borbulhar do preparado. Horas e horas de zelo, tenacidade e devoção. Veraz e fidedigna entrega total.
Delírio.
Euforia.
Excentricidade.
Efervescência indomável, proveniente das enigmáticas entranhas da fermentação anaeróbia do sentimento.
Dias, semanas, meses, anos… O tempo escoa.
O lume, outrora alto, dá lugar a um ameno braseiro e com ele toda uma nova cognição vem ao de cima.
Enquanto a água evapora, o duro é amaciado e o caldo ganha textura e profundidade.
O resultado não poderá deixar de ser um aromático, suculento e delicioso molho de nostalgias adensadas pelo tempo.
Ai, o tempo...
Com ele tudo ganha uma nova dimensão, muito embora o cozinhado não cesse de refogar.
Pois! Estranha obstinação.sábado, 14 de maio de 2016
Relatividade
O mundo é essencialmente condicional.
Há que se negar, a todo o custo, o carácter único e absoluto do que quer que seja, para que o curso sinuoso do rio se mantenha.
As relações de dependência e de subordinação estão sempre presentes, dos mais profundos dos covis das caliginosas entranhas do subsolo, aos meandros dos píncaros mais proeminentes.
O facto da água brotar da nascente, não a impede de percorrer as vertiginosas ladeiras da montanha, nem tão pouco a interdita de regar os murchos e adustos socalcos da vida de cada um.
Tudo é relativo e tudo converge para uma única realidade.
Há que se negar, a todo o custo, o carácter único e absoluto do que quer que seja, para que o curso sinuoso do rio se mantenha.
As relações de dependência e de subordinação estão sempre presentes, dos mais profundos dos covis das caliginosas entranhas do subsolo, aos meandros dos píncaros mais proeminentes.
O facto da água brotar da nascente, não a impede de percorrer as vertiginosas ladeiras da montanha, nem tão pouco a interdita de regar os murchos e adustos socalcos da vida de cada um.
Tudo é relativo e tudo converge para uma única realidade.
quinta-feira, 14 de abril de 2016
Ecletismo versus mediocridade
Perguntei recentemente a uma pessoa que estilo de música é que
costumava ouvir e a resposta que obtive foi: - “Eu sou eclético.” Bom,
até aí nada de surpreendente. O que realmente me pasmou, foi que ao
virem à baila géneros como o Pimba, o Sertanejo, a Kizomba ou Reggaeton,
a pessoa em causa ter assumido uma
postura incomensuravelmente defensiva. As suas palavras foram, nada
mais, nada menos do que: - “Não ouço nada disso, que bimbo…”
Uowwwwwwwwww… ??!!
Pois bem, o ecletismo não busca a conciliação e harmonização de teorias e estilos distintos? Não poderá simplesmente ser considerado como a liberdade de escolha, sem qualquer tipo de apego a determinada marca, estilo ou conceito?
Que eu saiba, o termo eclético opõe-se a todas a formas de dogmatismo e radicalismo.
O ecletismo inclui, não exclui.
A grande maioria dos autoproclamados ecléticos que por aí andam, acham-se os suprassumos da inteligência musical. Rejeitam todos os géneros que consideram menos dignos, em grande parte por nem sequer os conhecerem e glorificam os que julgam apropriados por estarem em voga. - Mas bom, eu sou eclético - afirmam.
Afinal o que é que é bom do ponto de vista musical? Não deveria ser o que nos faz sentir bem?
Será que ainda não deu para entender que esta é mais uma daquelas indecifráveis questões anímicas?
Num mundo em que a maioria procura valorizar o pensamento independente, a contracultura, os políticos progressistas, a arte, a criatividade e a inteligência, reina a mediocridade e a exclusão.
“Todos” querem ser “hipsters” e pensar “out of the box”, sem sequer se aperceberem que na realidade esse é o “mainstream” do momento. Pior! A maioria nem pensa “no interior da caixa” quanto mais fora dela...
Paradoxal, não???
Acho impressionante que em pleno século XXI ainda permitamos que reprimam e desrespeitem os nossos gostos deste modo. Quantas vezes fizemos afirmações do tipo: “Este é o meu gosto decadente.” Mas decadente por que carga de água? Porque é simplista? Porque a maioria considera desprezível? Mas qual é afinal o real peso e importância dessa tal maioria?
Primam mas é pela liberdade. Possuam várias linhas de pensamentos. Não permitam que vos limitem.
A chave reside em não seguir um sistema em particular mas seleccionar e utilizar aqueles que são os melhores elementos de todos os sistemas.
A música não pretende a dissociação da sociedade e dos indivíduos mas sim a sua agregação. Deveríamos promover actos de partilha e de aproximação em detrimento de condutas de cizânia.
Necessitamos urgentemente de parar de amplificar defeitos e cessar de transpor os limites do bom senso, do respeito e da liberdade pessoal.
E por que não começar a enaltecer antes as virtudes do que nos rodeia?
Céus, quanta mediocridade…
Uowwwwwwwwww… ??!!
Pois bem, o ecletismo não busca a conciliação e harmonização de teorias e estilos distintos? Não poderá simplesmente ser considerado como a liberdade de escolha, sem qualquer tipo de apego a determinada marca, estilo ou conceito?
Que eu saiba, o termo eclético opõe-se a todas a formas de dogmatismo e radicalismo.
O ecletismo inclui, não exclui.
A grande maioria dos autoproclamados ecléticos que por aí andam, acham-se os suprassumos da inteligência musical. Rejeitam todos os géneros que consideram menos dignos, em grande parte por nem sequer os conhecerem e glorificam os que julgam apropriados por estarem em voga. - Mas bom, eu sou eclético - afirmam.
Afinal o que é que é bom do ponto de vista musical? Não deveria ser o que nos faz sentir bem?
Será que ainda não deu para entender que esta é mais uma daquelas indecifráveis questões anímicas?
Num mundo em que a maioria procura valorizar o pensamento independente, a contracultura, os políticos progressistas, a arte, a criatividade e a inteligência, reina a mediocridade e a exclusão.
“Todos” querem ser “hipsters” e pensar “out of the box”, sem sequer se aperceberem que na realidade esse é o “mainstream” do momento. Pior! A maioria nem pensa “no interior da caixa” quanto mais fora dela...
Paradoxal, não???
Acho impressionante que em pleno século XXI ainda permitamos que reprimam e desrespeitem os nossos gostos deste modo. Quantas vezes fizemos afirmações do tipo: “Este é o meu gosto decadente.” Mas decadente por que carga de água? Porque é simplista? Porque a maioria considera desprezível? Mas qual é afinal o real peso e importância dessa tal maioria?
Primam mas é pela liberdade. Possuam várias linhas de pensamentos. Não permitam que vos limitem.
A chave reside em não seguir um sistema em particular mas seleccionar e utilizar aqueles que são os melhores elementos de todos os sistemas.
A música não pretende a dissociação da sociedade e dos indivíduos mas sim a sua agregação. Deveríamos promover actos de partilha e de aproximação em detrimento de condutas de cizânia.
Necessitamos urgentemente de parar de amplificar defeitos e cessar de transpor os limites do bom senso, do respeito e da liberdade pessoal.
E por que não começar a enaltecer antes as virtudes do que nos rodeia?
Céus, quanta mediocridade…
Subscrever:
Mensagens (Atom)