Recentemente dei por mim a ser demasiado benevolente em determinada
ocasião, sem qualquer tipo de razão aparente. O facto de já o ter feito
em várias situações, alertou-me para o enorme erro em que tenho estado a
incorrer.
Até que ponto é que devemos reger-nos pela complacência e condescendência? Por que procuramos a todo o custo evitar conflitos?
O meu carácter diplomático, sempre me permitiu um certo tipo de
abertura para ceder às vontades ou às opiniões dos outros, sempre que as
situações sociais assim o requeressem.
Contudo, ao fazê-lo, estaremos a ser fiéis a nós próprios? Qual é a
linha que separa a flexibilidade e a tolerância da hipocrisia e da
incapacidade de imposição?
Os seres humanos vivem, desde os primórdios, clara e
indiscutivelmente em sociedade. Encontramo-nos ligados uns aos outros
pelo simples factor necessidade, já que precisamos de satisfazer os
nossos desejos e garantir a nossa continuidade enquanto espécie. Curto e
grosso. Manifestamos todo um rol de necessidades estruturais, físicas,
materiais, emocionais, adiante…
Precisamos desesperadamente de afirmação e de reconhecimento mas para
que isso aconteça é suposto que reconheçamos e que congratulemos o
próximo.
Demasiado ambíguo?
Simplifiquemos então: Para que a coisa funcione, requer-se que
sejamos complacentes. É esperado que sejamos amistosos, gentis e
prestativos, para que desta forma, possamos agradar e cativar as
pessoas. No entanto não podemos abusar no tempero. Sim, o excesso de
complacência pode ser visto como fraqueza, ao denotar uma incapacidade
de expressão de opiniões próprias. Ou seja, basta uma pequena pitada de
duplicidade. Nunca nada de muito evidente já que não pretendemos salgar o
preparado que tanto trabalho requereu.
Bom, então o que se espera de cada um de nós é que não fujamos à
regra. Devemos dar com uma mão e retirar com a outra, para que o
equilíbrio titubeante em que serenamente vivemos não seja abalado.
Imagino que o leitor esteja a pensar que isto não se aplica a si e
como tal aconselho-o vivamente a fazer uma reflexão. Acha que é sempre
fiel aos seus princípios? Exclui da sua vida todos os que considera
menos dignos? Não compactua com maneirismos? Respeita ou não
conveniências? Suporta aparências?
Será que é mesmo diferente ou não terá apenas uma avassaladora
necessidade de assumir o papel de mimo-gaio da rebelião dos modos
sociais?