Seguiu-se a carne. Ai, a carne.
Pedaço de músculo, corte barato. Fibras musculares e tecidos conjuntivos, quase que propositadamente escolhidos, dos destroços de um matadouro em ruínas, com o intuito de gelatinizar o colagénio da alma durante a calcinação.
Ferveu. Oh, como ferveu!
Pedaços firmes, vigorosos e inflexíveis, que se foram vagarosamente deformando, ao som do fugaz borbulhar do preparado. Horas e horas de zelo, tenacidade e devoção. Veraz e fidedigna entrega total.
Delírio.
Euforia.
Excentricidade.
Efervescência indomável, proveniente das enigmáticas entranhas da fermentação anaeróbia do sentimento.
Dias, semanas, meses, anos… O tempo escoa.
O lume, outrora alto, dá lugar a um ameno braseiro e com ele toda uma nova cognição vem ao de cima.
Enquanto a água evapora, o duro é amaciado e o caldo ganha textura e profundidade.
O resultado não poderá deixar de ser um aromático, suculento e delicioso molho de nostalgias adensadas pelo tempo.
Ai, o tempo...
Com ele tudo ganha uma nova dimensão, muito embora o cozinhado não cesse de refogar.
Pois! Estranha obstinação.