sexta-feira, 31 de julho de 2015

Trans(mutação)

A ausência de formação e a falta de informação, aliadas à presunção e à escassez de carácter, são dos factores que cada vez mais, remetem a humanidade em geral para o descalabro total.
Tudo começou, com uma daquelas grotescas conversas de supermercado que feliz ou infelizmente já todos presenciámos de forma involuntária. Pois bem, imaginemos um ser vaidoso, do tipo pedante e pretensioso, que se enaltece exacerbadamente e que se considera o suprassumo de todas as virtudes. Esta foi fácil, não? Num tom altamente ostensivo, digno de uma das chamadas estrelas de Hollywood, numa daquelas cerimónia de galardoação do cagalhão, uma senhora, claramente entendida em assuntos de foro químio-alimentar afirmou:
"- Gorduras trans, eu? Era o que mais me faltava. Li um artigo que dizia que devemos ter imenso cuidado com esse tipo de produtos transgénicos." - e lançou um enorme suspiro dramático que me trouxe imediatamente a Scarlett O'hara à memória.

O "trans" das chamadas gorduras trans advém da palavra transgénico????
Tantantantannnnnnn...
Muito gostam as pessoas de confundir Manuel Germano com género humano. Compreende-se perfeitamente que nem todos tenhamos uma graduação em bioquímica ou algo que o valha mas a questão que se coloca é que quando não se está dentro de um assunto, o ideal é mesmo não se fazer afirmações deste calibre.
As gorduras trans NÃO são geneticamente modificadas.
São apenas um tipo especial de gorduras, em cuja composição estão presentes ácidos gordos insaturados na configuração trans, em detrimento dos insaturados em posição cis. Os termos trans e cis referem-se a um tipo de isomeria geométrica cujos pormenores só interessam a investigadores e peritos em estereoisomerismo. O que realmente acontece, é que a cadeia que compõe esta molécula é menor e isso traduz-se numa maior rigidez, que lhe confere propriedades físicas diferentes, muito favoráveis no que respeita à sua estabilidade.
Desmistificando toda esta explicação química, verificou-se que a incorporação de uns hidrogénios através de processos industriais a estas gorduras, resulta numa solidificação e espessamento altamente proveitoso e rentável à indústria alimentar.
Com este processo nasceu uma nova galinha dos ovos de ouro, na medida em que se produz algo mais barato, que passa a dar meses de vida a determinados alimentos. Mas será que alguém ou alguma entidade, seria capaz de massificar essa produção, tendo conhecimento das repercussões nefastas à nossa saúde?
Claro que sim! O que seria dos produtos congelados e da comida processada em geral sem elas? A maior parte de nós consome-as diariamente, mesmo aumentando estas a probabilidade de aparecimento de placas de gordura no interior de veias e artérias, que podem causar enfartes ou derrames cerebrais.
No entanto vamos acreditar que o carrinho de compras que a tal senhora trazia cheio de bolinhos de pastelaria, bolachinhas, cremes de barrar, gelados, pizas, batatas fritas de pacote e margarina não era de todo para consumo próprio. Devia estar a recolher amostras para realizar um estudo analítico complexo desses "alimentos".