No decorrer do cumprimento do meu cargo oficioso, fui abordada por um ser tão repugnante, que nem me ocorrem adjectivos que fidedignamente o qualifiquem (o que prova, por si só, que nem é sequer digno de qualquer tipo de qualificação).
Passo a citar:
“-Olhe, vou a uma festa temática dos anos vinte e preciso de roupa. Sabe??! Um vestido curto com franjas ou qualquer coisa do género. Bom, não deve fazer ideia do que estou para aqui a falar, não é?? Não faça caso, eu entendo. Vou mostrar-lhe aqui umas fotos das roupas da época para vermos se percebe. “ - e após todo um discurso altamente arrogante e grosseiro, saca de um iPhone 5312 na tentativa de me rebaixar. Ai, perdão “elucidar”.
A magia que me invadiu nos primórdios do discurso, quando mencionou os loucos anos vinte, dissipou-se instantaneamente, como os copos de Champanhe da altura, assim que se deu por iniciada a hostilidade.
Woooooow
Quem poderia desconhecer uma das mais empolgantes décadas do século XX?
Alegria devassidão e folia.
Um dos mais significativos tornos de mudança, onde o término da primeira guerra mundial, impeliu a sociedade para alterações radicais.
Onde o pós-guerra contribuiu imensamente para que a mulher conquistasse finalmente um lugar de destaque na sociedade, através da admirável emancipação que lhe foi conferida pelo trabalho.
Elegância, charme e sedução aliados a todo um gritante glamour de libertação.
Findou-se a repressão levada a cabo por inúmeros espartilhos físicos e psicológicos e após anos e anos de luta, a silhueta da mulher torna-se finalmente tubular.
O guarda-roupa feminino foi revolucionado por nomes sonantes como o de Mademoiselle Chanel, que não só lançou um dos primeiros perfumes vendidos massivamente em todo o mundo (o Chanel no 5) mas que também introduziu, na nossa indumentária alguns dos traços do vestuário masculino. Madame Vionnet populariza o corte em viés, e a maquilhagem de cariz dramático que procurava captar a magia de uns lábios carnudos e berrantes e de realçar um olhar loucamente tentador e penetrante, ganha terreno.
Os irresistíveis e avassaladores vestidos flapper ganham vida e o provocante corte La Garçonne, curtinho, curtinho,curtinho, adornado por um pequeno e elegantíssimo chapéu de uso indispensável conhecido por cloche, passa a evidenciar todo um pescoço cercado de longos e intermináveis colares de pérolas. O penteado Marcel Waves ganha também grande mediatismo, e a aplicação de fixadores capilares para manter as ondas e reproduzir o estilo, geralmente ornamentado com plumas, torna-se viral.
Nisto, enquanto as mulheres ganham liberdade as saias perdem comprimento.
Os modelitos mais leves, soltos e curtos alimentam na perfeição a febre do Charleston. O calor do Jazz incendeia todos os bares e salões da altura, e a cultura negra começa a ganhar o seu espaço num mundo dominado pela supremacia branca. A realidade previamente estabelecida entra em colapso.
Mas bom... Após o imenso devaneio anterior, limitei-me a proferir que pouco ou nada havia de semelhante para satisfazer o tal ser inqualificável, e aos poucos, lá fui calmamente voltando a entrar no acre e ameno mundinho da confecção, onde não é de se esperar qualquer tipo de aptidão intelectual.
Se ao menos o Crash da bolsa de Nova York tivesse levado ao suicídio certos membros de uma determinada linha de ascendência...
terça-feira, 14 de fevereiro de 2017
sábado, 11 de fevereiro de 2017
Deslocalização
O electrão livre está preso.
Ficou retido num labiríntico sistema conjugado onde impera uma abafada aromaticidade repressiva.
As ligações insaturadas passaram a saturá-lo.
Embora salte, no interior da orbital, de átomo em átomo, não é capaz de se conectar.
Por mais que tente, a covalência circundante está muito aquém do esperado.
O híbrido equilíbrio passou a entediá-lo, da mesma maneira que as frias e chuvosas tardes de fim de semana entediam os corações sedentos de acção euforia e empolgação.
Correntes diamagnéticas, sopram timidamente como bravos e revoltos ventos na presença do forte magnetismo instaurado.
O electrão vai só embora acompanhado.
Tratar-se-á apenas de electronegatividade?
terça-feira, 7 de fevereiro de 2017
Sentimentos subversivos
O que dá inicio à subversão da alma, é uma abrupta alteração na hierarquia de valores.
Estes, por sua vez, ao traduzirem-se em acções, oscilam livremente entre o espontâneo e o deliberado, por meio de actuações extra-legais, culminando na total corrosão das forças e do poder previamente estabelecidos.
Os turvos e quentes uivos da razão desmoronam-se, e todo e qualquer vestígio de ordem desordena-se.
Segue-se então a tóxica e endiabrada propaganda, onde nos deixamos manipular sistematicamente pelas nossas próprias ideias, através da auto-transmissão controlada da informação parcial que detemos.
A limitação gera insubordinação, o que faz com que abusemos processualmente do que é considerado de direito.
Somos desestabilizados pela ausência de estratégia e derrubados pela incapacidade de resposta.
Estes, por sua vez, ao traduzirem-se em acções, oscilam livremente entre o espontâneo e o deliberado, por meio de actuações extra-legais, culminando na total corrosão das forças e do poder previamente estabelecidos.
Os turvos e quentes uivos da razão desmoronam-se, e todo e qualquer vestígio de ordem desordena-se.
Segue-se então a tóxica e endiabrada propaganda, onde nos deixamos manipular sistematicamente pelas nossas próprias ideias, através da auto-transmissão controlada da informação parcial que detemos.
A limitação gera insubordinação, o que faz com que abusemos processualmente do que é considerado de direito.
Somos desestabilizados pela ausência de estratégia e derrubados pela incapacidade de resposta.
sábado, 4 de fevereiro de 2017
Egocentrismo
Por norma, quando os planos que delineamos não correm de acordo com as nossas expectativas, tendemos a experienciar um misto de desalento, exasperação e frustração.
Foi justamente o facto de me ter apercebido do estranho rácio de sentimentos que me invadiu numa situação absolutamente trivial e corriqueira, que me levou não só a refletir mas a escrever sobre o assunto.
Estará o universo repleto de modelos egocêntrico com configurações semelhantes às do sistema solar? Será que bem lá no fundo, nos vemos a nós próprios como elementos centrais de um sistema, onde os remanescentes intervenientes e organismos giram à nossa volta?
Vamos então esmiuçar o conceito de egoísmo.
Teoricamente o ego age como intermediário entre os desejos e os mandamentos morais do “eu” , para que nós indivíduos, consigamos satisfazer as nossas necessidades, de acordo com as normas vigentes dos parâmetros sociais.
Acessível, certo?
É ainda de senso comum, o facto de aspirarmos a todo o custo alcançar o que pretendemos. Desde que o mundo é mundo, que a humanidade procura evoluir satisfazendo as suas necessidades (das mais básicas às mais complexas), tendo portanto em vista saciar as suas carências.
Existem naturalmente formas distintas de as atingir, umas mais ortodoxas do que outras, mas de qualquer modo todos nós já encarnámos a dada altura, o demónio da manipulação. Mesmo que até tenhamos bom íntimo e que procuremos assegurar o bem- estar alheio, se este convergir em demasia com os nossos mais profundos interesses, dá-se por iniciado um temível conflito existencial.
Onde quero chegar é ao seguinte: Quando confrontados com determinado entrave oponente ao que almejamos, não mediremos a situação com régua e esquadro procurando traçar os azimutes do que nos é mais conveniente? Até que ponto estará isso errado? Com maior ou menor exaltação da própria personalidade, não seremos afinal de contas, todos egoístas?
Se o leitor questiona a validade lógica destas interrogações, veja as coisas por este prisma.
Quer admitamos quer não, não podemos evitar o facto de querermos que a água seja levada ao nosso moinho.
Nós próprios somos tudo o que realmente temos.
Nós vamos ficar connosco para sempre, já que, e por mais ambíguo que possa parecer, somos a única coisa que efetivamente possuímos.
Não podemos evitar o facto de estarmos sempre e para sempre acorrentados a nós próprios. Essa condicionante faz com que mais cedo ou mais tarde nos amemos demais, e quem sabe um dia, excessivamente.
Como vencer afinal com dignidade a batalha interior que se inicia quando o universo não conspira a nosso favor?
Sermos egoístas fará de nós más pessoas?
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