sexta-feira, 27 de abril de 2018

Espaço sideral (III)


Era como que uma espécie de obstrução.
O caminho de Y estava bloqueado.
Uma vez tendo tudo ido pelo relo abaixo, precisava o quanto antes de desentupir a canalização.
Todo e qualquer vestígio de detrito encontrava-se depositado lá bem no fundo da sua alma, o que impossibilitava qualquer tipo de circulação, saída, passagem.

Soda cáustica e meia chávena de vinagre? Insuficiente!

Neste caso particular havia mesmo necessidade de se retirar o sifão.

A determinada altura, a sua vida tinha sido amaldiçoada.
Embora fosse incapaz de precisar quando, onde, porquê, ou por quem, era facto consumado.
Tratava-se de um daqueles acontecimentos sobrenaturais caracterizados pela suprema adversidade e incoerentes manifestações de azar.

À semelhanças das maldições presentes em relatos bíblicos, esta apenas poderia ser revogada quando uma entidade superior interviesse e promovesse a sua libertação.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Espaço sideral (II)

Todo o cenário envolvente, remetia-o para um artigo que lera em tempos, de um tal Ortega y Gasset.
Para sua tremenda infelicidade Y, estava bem familiarizado com este conceito.
Era pois, por esse senhor, defendida a predominância de um novo tipo de homem intitulado “homem- massa”,cuja conduta e estrutura psicológica muito deixava a desejar.

Tratava-se portanto de um império, completamente saturado de pessoas desinteressantes, incapazes de nada oferecerem além de seu primitivismo intelectual.

Tudo se baseia numa nativa e radical impressão de que a vida é fácil, abastada, sem grandes limitações trágicas; portanto, cada indivíduo médio encontra em si uma sensação de domínio e triunfo, que o convida a afirmar-se a si mesmo e considerar bom e completo o seu haver moral e cognitivo.

Este pedante auto-contentamento, leva-o a fechar-se hermeticamente, a não ouvir, a não pôr em tela de juízo as suas opiniões e a não contar verdadeiramente com os demais.
Piorando um pouco mais, verifica-se ainda que embora usufrua das benesses da civilização, não tem qualquer interesse pelos princípios que estão na base da sua formação e sustentação.

Na realidade o verdadeiro degredo, era sim conhecer uns tantos espécimes tediosamente vulgares, que aspiravam a todo o custo deixar a sua própria pegada de mediocridade neste mundo.

terça-feira, 3 de abril de 2018

Espaço sideral (I)

Existia, naquele mundo, uma enorme pressão social que os impelia para a convivência.
Os nativos, nasciam, cresciam, viviam e morriam inter-relacionados uns com os outros, na vasta imensidão daquele caricato universo.

Na realidade, um dos aspectos mais importantes do exercício pleno da existência daquele povo, assentava na laboriosa arte de conviver.
Tratava-se não só de um íngreme e árduo caminho repleto de sinuosos trilhos, mas também de uma aprendizagem significativa que interpelava as múltiplas inteligências, emoções, sentimentos, apegos e aceitações dos demais.

As normas eram bem claras! Encontrarem-se sadiamente vinculados, significava respeitarem com honestidade e responsabilidade, tanto os outros como a si mesmos, aprenderem a compartilhar conquistas e frustrações, bem como reconhecerem a igualdade na diversidade.

Y preferia o vácuo parcial. Aquele gélido vazio apenas habitado por uma baixíssima densidade de partículas! Frio, muito frio! Ansiava desesperadamente pela subversão dos valores previamente estipulados e há séculos em vigência. Idealizava uma revolução. Uma revolução sideral.