quarta-feira, 22 de junho de 2016

Tempestade (parte VI)

Após meses e meses de navegação à bolina, a embarcação encontrara finalmente uma paz divina, que lhe fora conferida, como que à sorte, pelos ilustres Deuses anemófilos.
Ao largo da ilha não existia mais qualquer tipo de vento predominante.
As vergas, presas aos mastros através de um complexo sistema de cabos, não oscilavam um único milímetro, o que tornava impossível o simples processo de bracear.
Qualquer tentativa de monitorização de correntes de superfície e de agitação marítima era absolutamente infrutífera.
De um momento para o outro, tudo ficou em suspenso e durante o alvorecer do crepúsculo, tudo se apaziguou fleumaticamente.
Cessaram os odores ralos, florais, acres e edulcorados, as cores ténues, subtis, garridas e vibrantes, tudo. Foi tudo suprimido, naquele ensejo bizarro e insólito.
Era quase como que o triangulo das Bermudas, rei dos fenómenos inexplicáveis, um insondável mistério que se precipitava à velocidade da luz.
Forças magnéticas invulgares, túneis do tempo intrincados, enigmáticas ocorrências extraterrestres, obscuros mecanismos paranormais ou qualquer outro tipo de fenómeno metafísico ininteligível.
O tempo parara, e tal como gritara severamente o capitão, era hora de ancorar!

sábado, 18 de junho de 2016

Tempestade (parte V)

Certa noite, intensificaram-se os murmúrios.
Um ruído surdo, desconexo e incongruente apoderou-se do convés sem pedir licença, fazendo com que todos marujos se sentissem seriamente perturbados, sem que na realidade soubesse porquê.
Ventos uivantes açoitavam vigorosamente as rochas, e reverberavam imagens do passado, ao incorporarem-se nas águas agitadas balançantes.
O som suave e agudo resultante, associado ao bulício proveniente da ilha ali já tão perto, gerava pois, todo um misto de nostalgia e de consternação.
O ramalhar das árvores gimnospérmicas e dos mansos e estéreis arbustos, era suficiente para perfurar deliberadamente o peito de cada homem e atrasar-lhe os batimentos cardíacos por cinco ou seis segundos.
As dúvidas e desconfianças instauravam-se novamente.
Os marinheiros, até então fortes e inabaláveis, vacilavam como donzelas espavoridas em noite de núpcias.
Todo aquele tinido parcialmente abafado pela surdina do solo, alertava-os e relembrava-os de todos os perigos em que poderiam incorrer, naquele agridoce paraíso repleto de duplicidade.
 Contudo, já era tarde demais.
Todas as coordenadas geográficas já haviam sido traçadas.
Voltar atrás não era mais uma opção.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Telhados de emoções

Conceberia telhados de emoções.
Coberturas edificadas de sentimentos, cuja função primordial assentaria em proteger o templo sagrado de cada um, das mais diversificadas intempéries exteriores.
Criá-los-ia de múltiplas formas, cores, feitios, uns mais altos outros mais baixos, simples ou sobrepostos, com telhas opacas ou translucidas, de barro, zinco ou vidro; telhados de palha; toda uma infinidade de opções para toda uma vastidão de complexidades
Impermeabilizaria a cobertura destes templos, fora da época das chuvas, longe dos turbilhões intempestivos das relações humanas, fazendo uso de uma trama de coragem, quadriculado constituído de terças, caibros e ripas, que se apoiariam sobre a armação e que, por sua vez, serviriam de apoio às telhas do infortúnio.
Fixaria, cuidadosamente, cada uma destas últimas, com silicone de arrojo ou com argamassa de determinação, de modo a proteger a nave da exposição solar das injúrias e de todos os restantes agentes deteriorantes associados ao ultraje, que promovem o seu tão temível desgaste.  
Manter-me-ia permanentemente atenta aos cupins, célebres isópteros da maldade, evitando assim, que estes consumissem as madeiras de sustentação e causassem o deslocamento das unidades básicas de apoio.
Monitorizaria assiduamente toda a área interior, procurando goteiras de desalento, ou vestígios de infiltrações de agonia pelas lajes a dentro, até encontrar e exterminar, o pútrido mofo destruidor de almas.
Protegeria a fortaleza com unhas e dentes, impedindo todo e qualquer ato de barbárie, selvageria ou de profanação.
Fá-lo-ia com determinação.
Fá-lo-ia de bom grado.
Fá-lo-ia se pudesse.
Fá-lo-ia se todos os alicerces necessários existissem e estivessem ao meu alcance.

terça-feira, 14 de junho de 2016

Lobo solitário

Com uma baixa necessidade de afiliação, e o mesmo nível de aceitação, emulsiona-se no mundo de forma peculiar, como que se de um processo termodinamicamente instável se tratasse.
Foca-se nos seus próprios valores e ideais e por vezes, chega mesmo a parecer que é estimulado pela solidão.
Uiva, não para se integrar e obter companhia mas sim para se afirmar.
Embora não decline por completo as interações sociais, estas parecem drená-lo, da mesma forma que os tubos, túneis, canais e valas, auxiliam o processo de escoamento de águas, acumuladas em terrenos encharcados.
Reconhece a importância da alcateia mas despreza no entanto, toda e qualquer organização hierárquica, assim como o cumprimento de tarefas e seguimento de normas e convencionalismos infundados.
É um líder nato, num mundo que não pretende nortear.
É sorrateiro, ardiloso e frequentemente menosprezado por membros menos astutos da agremiação.
Possuidor de um orgulho cintilante que lhe é característico, mantém-se sempre fiel à sua natureza distinta, consagrando deste modo todas as suas lutas e vivências laboriosas.
É ainda selvagem. Domesticá-lo seria inconcebível. Um erro crasso! Isto já para não mencionar que tal tentativa apenas o repeliria perpetuamente.
O lobo não vive enjaulado mas livre. Goza de toda uma autonomia, soberania e emancipação pungentes.
Caminha só, nas planícies da incerteza e do incógnito mas vai seguro.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Tempestade (parte IV)

O mar, cerúleo, estava plácido e sereno.
À distância a que se encontravam, considerável do ponto de vista físico mas curtíssima em proximidade transcendente, bastava apenas respirar-se, calma e profundamente, para que todo aquele eflúvio voltasse.
Odor adocicado, frondoso, bravio, penetrante.
Fresca amálgama ardente de que é composto o elixir da vida.
Muito poucas palavras conseguiriam descrever exatamente as sensações difusas que o cheiro a éden lhes trazia de volta.
Desejo.
Magnetismo.
Arrebatamento.
Êxtase.
Impermisto vínculo inquebrável.
E assim, de modo incansável, essa preciosa fragrância envolvente, continuava a bombardear, com resoluta perseverança, os já debilitados corpos dos membros tripulantes.
– Até quando aguentaremos esta tortura? – Perguntavam-se os lobos-do-mar.
– Até quando? – Bradavam aos céus.
E as respostas acres continuavam sem surgir mas o odor desconcertante, esse sim, persistia em martirizá-los.

Tempestade (parte III)

A simples ideia de pisar mais uma vez a terra prometida, traz um novo alento ao corpo embarcadiço.
É como que se todos os sentidos se fossem gradualmente aprimorando, para legitimarem a almejada e triunfante chegada.
O sol, por exemplo, deixa de queimar os insípidos corpos encarquilhados, passando antes a brindá-los, gentilmente, com o seu fulgor repleto de luminosidade.
O próprio espectro eletromagnético alastra-se indefinidamente, desafiando todas as leis da física, da química, da matemática e a luz visível apodera-se de tudo o que existe. Quais, comprimentos de onda, frequências, velocidades de propagação…
Nada disso importa.
Relevante mesmo, só é o modo como ela incide no passado e se reflete no presente, acentuando os mais belos contornos do futuro.
Tudo parece voltar a ganhar nitidez.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Tempestade (parte II)

Nisto, durante a passagem do ciclone, o comandante outrora entorpecido, num rasgo de inspiração intempestiva gritou audazmente: - Leme a estibordo .
Todos os tripulantes do navio tremeram e titubearam no convés.
Já não navegavam em cabotagem, sem perder a costa de vista, mas sim em águas profundas e desconhecidas em pleno alto mar.
Embora todo este carácter tétrico, sobressaltasse e aterrorizasse até a mais valente das almas, todos sem excepção, cumpriram com afinco as tarefas a cada um destinadas.
A noção de dever impulsionou estes marujos a efetivar o imprescindível.
Tal como um relógio de precisão, surgiu de um lado a mola principal que impulsiona a força para girar o ponteiro e do outro lado, o escape, que proporciona o balanço necessário para equilibrar essa mesma força.
-A caminho – comunicou com entusiasmo o timoneiro, logo que se conseguiu firmar no rumo ordenado, com o leme praticamente a meio.
E assim, de um momento para o outro, como que de magia se tratasse, a decrépita e deteriorada embarcação ganhou vida.
O ar vindo de cima do mastro afundou-se, e com ele toda uma nova estabilidade iminente suprimiu os movimentos ascendentes, necessários à formação de nuvens e precipitação.
O tempo suavizou-se, tornou-se limpo e os primeiros raios de sol despontaram.
Avista-se ao longe uma praia paradisíaca, quem sabe real, quem sabe imaginária.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Tempestade (parte I)

O subtil e amistoso chilrear dos pardais provindo do cume dos plátanos, as belas folhas das árvores caducifólias após aparecimento da floração, o bafo quente e seco amenizado pela presença de hodiernos nebulizadores, acompanhado do doce e refrescante sabor da felicidade, marcaram a mansa calma dissimulada que antecede as grandes tempestades.

Quem diria.

As límpidas e fleumáticas águas da fonte, portadoras de uma beleza singular, agitaram-se de tal modo, que toda aquela forte e pavorosa energia estático- dinâmica, gerou não só a sua eletrólise mas também a de todos os corpos remanescentes.

Todo um festival de trovões ribombantes, precedido de curtos relâmpagos tenebrosos, anunciou o prelúdio de um angustiante desenrolar kafkiano.

O sufoco, a ansiedade, a insegurança e a inquietação apoderaram-se da ocorrência, surgindo uma implosão explosiva, com direito a deflagração, ondas supersónicas e tudo o mais a que tinha direito.

Assim, sem mais nem menos, nasceu um pulveroso rebuliço emocional.