terça-feira, 14 de março de 2017

Vaticinando felicidade


Era um dia como qualquer outro.

O cinzento do céu, abatia-se sobre a vegetação autóctone, onde a inconfundível paisagem repleta de carvalhos,pinheiros e oliveiras, exaltava toda uma pureza e equilíbrio reconfortantes, quando tocada pelos tímidos e ténues raios de luz.

O montado de sobro, albergava tacanhas e desordenadas pastagens e as extensas vinhas davam vida ao arenoso solo esmarrido.

Sentia-se que todo aquele cenário bucólico anteveria algo esplendoroso.

À medida que o incontornável aprimoramento de sentidos ia ganhando terreno após a chegada e processo de reconhecimento, exaltaram-se concomitantemente os quatro humores.

O coração adquirira características metálicas, uma vez congelado pela solenidade da ocasião e amedrontadamente palpitava sob pressão, como pistão no interior de cilindro de motor de explosão.

A tensão e a rigidez entraram inoportunamente em cena e tanto os membros superiores como os inferiores, pareciam apenas responder a estímulos de modo mecânico e dissimulado.

Foi justamente no momento em que tudo parecia prestes a desmoronar-se, que interveio um mago sopro de vida.
Assemelhava-se àquelas tranquilizantes e prazenteiras aragens de fim de tarde.
Era doce, quente e reconfortante. Sereno, terno e consolador.

Emanava tal intensidade, firmeza, segurança e confiabilidade, que apenas em breves instantes reduziu a nada todas as incertezas e hesitações.
Tinha-lhe sido conferida a dádiva de absorver medos, do mesmo modo que o mata-borrão absorvia tinta em época de canetas de pena e foi exactamente aí que se deu a magia.

De olhos postos no infinito, deixou-se levar pelas fluídas correntes do encantamento e experienciou algo fascinante. A combinação da presença do ser que lhe proporcionara tudo aquilo, com a forma como o vento lhe acariciava a face, o intenso cheiro a hidrocarbonetos e a aguda sinfonia orquestrada por cada variação de punho, não tinham explicação. Se aliarmos ainda a tudo isso o harmonioso cenário campestre anteriormente mencionado, obter-se-á nada menos que perfeição.

Uma noção insurgente de alegria e de liberdade nunca antes sentidas invadiram-lhe a alma de serenidade e esperança.
Voou como nunca antes tinha voado, de modo puro e autentico, acabando finalmente por aterrar de forma abrupta sobre aquele solo abençoado, debaixo de uma luz esplendorosa.

Após a aparatosa queda, o sopro aproximou-se e juntos, de olhos postos no firmamento, selaram votos mudos e vaticinaram novos voos conjuntos.