Era um dia como qualquer outro.
O cinzento do céu, abatia-se
sobre a vegetação autóctone, onde a inconfundível paisagem
repleta de carvalhos,pinheiros e oliveiras, exaltava toda uma pureza
e equilíbrio reconfortantes, quando tocada pelos tímidos e ténues
raios de luz.
O montado de sobro, albergava tacanhas
e desordenadas pastagens e as extensas vinhas davam vida ao arenoso
solo esmarrido.
Sentia-se que todo aquele cenário
bucólico anteveria algo esplendoroso.
À medida que o incontornável
aprimoramento de sentidos ia ganhando terreno após a chegada e
processo de reconhecimento, exaltaram-se concomitantemente os quatro
humores.
O coração adquirira características
metálicas, uma vez congelado pela solenidade da ocasião e
amedrontadamente palpitava sob pressão, como pistão no interior de
cilindro de motor de explosão.
A tensão e a rigidez entraram
inoportunamente em cena e tanto os membros superiores como os
inferiores, pareciam apenas responder a estímulos de modo mecânico
e dissimulado.
Foi justamente no momento em que tudo
parecia prestes a desmoronar-se, que interveio um mago sopro de vida.
Assemelhava-se àquelas tranquilizantes
e prazenteiras aragens de fim de tarde.
Era doce, quente e reconfortante.
Sereno, terno e consolador.
Emanava tal intensidade, firmeza,
segurança e confiabilidade, que apenas em breves instantes reduziu a
nada todas as incertezas e hesitações.
Tinha-lhe sido conferida a dádiva de
absorver medos, do mesmo modo que o mata-borrão absorvia tinta em
época de canetas de pena e foi exactamente aí que se deu a magia.
De olhos postos
no infinito, deixou-se levar pelas fluídas correntes do encantamento
e experienciou algo fascinante. A combinação da presença do ser
que lhe proporcionara tudo aquilo, com a forma como o vento lhe
acariciava a face, o intenso cheiro a hidrocarbonetos e a aguda
sinfonia orquestrada por cada variação de punho, não tinham
explicação. Se aliarmos ainda a tudo isso o harmonioso cenário
campestre anteriormente mencionado, obter-se-á nada menos que perfeição.
Uma noção insurgente de alegria e de
liberdade nunca antes sentidas invadiram-lhe a alma de serenidade e esperança.
Voou como nunca antes tinha voado, de
modo puro e autentico, acabando finalmente por aterrar de forma abrupta
sobre aquele solo abençoado, debaixo de uma luz esplendorosa.
Após a aparatosa queda, o sopro
aproximou-se e juntos, de olhos postos no firmamento, selaram votos
mudos e vaticinaram novos voos conjuntos.