Frio.
Sentia frio.
Uma álgida e parcimoniosa sensação
de esmorecimento apoderava-se do seu corpo e apropriava-se vorazmente
da sua alma.
Dura.
Severa.
Inclemente.
Ininterrupta.
Sentia-se como que um metal
desprotegido em contacto directo com o ar.
Claramente desapontada e amedrontada,
indagava-se sobre o infeliz processo de corrosão que sobre ela se
abatera.
-”O que te falta, diabos?”-
interpelava-se vezes e vezes sem conta.
Tinha a impressão de viver num mundo
insuficiente para si.
Era como que se no seu nascimento,
tivesse escapado a um naufrágio e posteriormente tivesse sido
aprisionada por um grupo de pessoas minúsculas, ao estilo Lilliput.
Gulliver dos tempos modernos, sempre
desenquadrada e em busca de qualquer coisa desconhecida, vivia apenas a dois palmos da realidade.
Nada era para si suficientemente bom,
quando devidamente sondado e analisado.
Os padrões de qualidade pelos quais se
regia eram demasiado utópicos.
Criara, ao logo dos anos, quimeras e
quimeras de esterco, onde agora se afundava cada vez mais.
E mais.
E mais.
E mais...