sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Morosidade



Chega doce suave e vagarosa como os surreais lençóis do Maranhão.

Tão bela, tranquila e reluzente.

Infindáveis lagoas de vagar, que percorrem calma e serenamente as mentes desafogadas que se deixaram corromper pelo erróneo vagar.

Orla.

Sedimentos de expectativas e conjecturas levados pelo vento.

Areias.

Dunas de coisa nenhuma.

Oásis de desassossego onde se abate um orvalho de tédio.

Desacerto.

Ausência de nitidez.

Réstia de esperança perdida num universo de quedo tumulto.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Glacial (parte I)

Frio.
Sentia frio.
Uma álgida e parcimoniosa sensação de esmorecimento apoderava-se do seu corpo e apropriava-se vorazmente da sua alma.
Dura.
Severa.
Inclemente.
Ininterrupta.
Sentia-se como que um metal desprotegido em contacto directo com o ar.
Claramente desapontada e amedrontada, indagava-se sobre o infeliz processo de corrosão que sobre ela se abatera.
-”O que te falta, diabos?”- interpelava-se vezes e vezes sem conta.
Tinha a impressão de viver num mundo insuficiente para si.
Era como que se no seu nascimento, tivesse escapado a um naufrágio e posteriormente tivesse sido aprisionada por um grupo de pessoas minúsculas, ao estilo Lilliput.
Gulliver dos tempos modernos, sempre desenquadrada e em busca de qualquer coisa desconhecida, vivia apenas a dois palmos da realidade.
Nada era para si suficientemente bom, quando devidamente sondado e analisado.
Os padrões de qualidade pelos quais se regia eram demasiado utópicos.
Criara, ao logo dos anos, quimeras e quimeras de esterco, onde agora se afundava cada vez mais.
E mais.
E mais.
E mais...