terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Assimptotas

Tal como no temível, apavorante e complexo cálculo diferencial, os limites da vida podem sofrer uma análise minuciosa, definindo-se desse modo derivadas e aspectos de continuidade.
Há tantas variáveis...
Medo, hesitação, fragilidade ,insegurança, conformismo, negação, audácia, resiliência, coragem, independência, fé, emancipação;
Contudo tanto as independentes como as dependentes partilham a mesma extensão, complexidade e acima de tudo a mesma indefinibilidade. 

Somos funções, que vivem em função de determinada função.

O nosso comportamento é irregular, e à medida que o seu argumento se aproxima de um determinado valor, converge para tudo ou para nada.
Tendemos inevitavelmente para algum lado, muito embora não sejamos por vezes capazes de calcular para que limite se desviam os dogmas da existencialidade. 

Zero ou infinito?

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Expediente



Contrariamente ao que gostaria, nos últimos dias tenho andado a fazer horas extra no meu pouquíssimo acirrante emprego (sendo o pouquíssimo, referente a uma escala na ordem dos picómetros).
O intuito é óbvio, simples e conciso: Ganhar mais dinheiro, pondo assim termo à errática situação financeira que me tem vindo a assolar nos últimos tempos.

Ai a louvara... Sempre me cativou a possibilidade de emancipação e de livre- arbítrio mas ao aperceber-me das suas implicações, em parte associadas a este mágico universo de labuta, a visão romântica e idealista que detinha ,começou a dissipar-se gradualmente como fumaça ao vento.

Na realidade nada é um mar de rosas, até porque “Actioni contrariam semper et aequalem esse reactionem”.

O admirável mundo laboral consegue por vezes engolir-nos de tal modo com as suas façanhas ominosas, que por vezes chega mesmo a adquirir um certo carácter jocoso.

Afogamo-nos com facilidade no tenebroso mar habitado pelo polvo colossal da produtividade, da rentabilidade, da pontualidade, da assiduidade, da imagem, dos rankings, das horas subsidiadas, dos lay-off’s, dos lock-out’s, das meetings, etc etc etc...

Os seus longos, tenazes e flexíveis tentáculos detetam-nos, tateiam-nos e aprisionam-nos com as suas ventosas, chegando mesmo a sugar-nos parte da alma.

Petrificante, não?
Bom, felizmente nem tudo é mau.
Embora não possamos evitar o aprisionamento físico, ainda podemos usufruir de toda uma liberdade mental, que impossibilita que sejam detidas as nossas mais nobres e profundas conjeturas.

Ainda não nos escavacam a mente com brocas de perfuração petrolífera, embora estejamos sim sujeitos à massiva lobotomia dos meios de comunicação e das redes sociais, de maneira que podemos sempre distrair-nos e deleitar-nos com altos voos vagueantes.

Temos ainda como alternativa, a possibilidade de nos embrenharmos a fundo nas entranhas do trabalho, acabando por deixar de parte a realidade e alienarmo-nos por completo. É uma excelente opção para casos de insatisfação e de insucesso pessoal.

Et voilá.
É esta a fulgurante conceção amplamente filosófica que pretendo deixar no ar.

Trabalho: forca ou trampolim?

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Impasse 


 A estrutura não está completa.

O protótipo foi corretamente executado mas falta-lhe o ímpeto. O espírito. Falta-lhe a alma.

É como que uma espécie de Pinóquio, ainda boneco de madeira, sem a intervenção da fada azul.

À noite, continua a pedir-se encarecidamente às estrelas e a todos os restantes corpos celestes luminosos que a história se transforme em algo real e palpável.

A magia é complexa, caprichosa, repleta de mistérios inexplorados e aparenta ter vontade própria mas de qualquer modo, se esta indomável força sorriu a Geppetto, por que não haveria de sorrir novamente?

Pontualmente vislumbravam-se pequenos flashes da sua essência. A majestosa nuvem de magia invadia aquele pobre universo em disrupção, e espontaneamente regava tudo à sua passagem, surpreendendo e deslumbrando por completo todos os seus intervenientes. Uma enorme chuvada tropical assolava o espaço, fertilizando cada pedacinho de alma com aquelas esperançosas e ricas águas repletas de vida. Em contrapartida, ao alvorecer, tudo voltava redundantemente à estaca zero. Aos primeiros ténues raios de luz, o feitiço era quebrado, e com ele, todo o precioso encantamento encerrado lá bem no fundo do baú da impaciência e da recordação.

Ultimamente não chove nem faz sol. As magnificas precipitações de magia cessaram por completo e o sol deixou de raiar. Um intenso nevoeiro abateu-se sobre a região, distorcendo dura e severamente toda a realidade remanescente.

Por mais que se procure erguer a mítica e alada varinha de condão da fada azul, o teimoso e obstinado grilo falante não o permite. A sua voz estridente e repetitiva acaba sempre por consciencializar-nos, confrontando-nos com a dura realidade que preferimos a todo o custo ignorar.

Agora é que são elas. Chegou-se ao tão temido impasse.


terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Impaciência


Erva daninha encarquilhada e colossal, que atormenta devastadoramente as pobres almas ansiosas.

Atitude pela qual os que apresentam baixos níveis de tolerância, são remetidos para uma interminável espiral de frustração abismal.

Contração espasmódica involuntária do diafragma, onde o ar sôfrego, após movimentos alternados de distensão e de relaxamento, se movimenta com sóbria avidez desesperante.

Ventos álgidos da Patagónia, que dilaceram a psique e varrem velozmente toda e qualquer réstia de esperança à sua passagem.

Raiz amarga e intrigante de alcaçuz, que de forma lenta e deliberada, nos vai torturando com o seu poderoso e intenso sabor amargo.

Areia movediça, provocada por lençóis freáticos de expectação, que ao não oferecerem suficiente resistência, nos impulsionam  irremediavelmente para as profundezas da insatisfação.

E agora? Como proceder quando o tempo que marca a realidade, não se ajusta às nossas mais vis expectativas?

domingo, 1 de janeiro de 2017

A caixa (Parte VII)

Perdia-se e reencontrava-se inúmeras vezes.

Betta estava preso num bizarro e arrebatador labirinto galáctico em forma de espiral.
Cercado de gases hediondos e de poeiras sedutoras, sentia-se como que no interior de uma densa nuvem molecular, onde o brilho dos aglomerados corpos celestes, quase se anulava com o dissimulado vislumbre da matéria negra.

Ventos aguçados fustigavam-no drasticamente, impelindo-o por vezes para o desassossego dos braços marginais, a parsecs e parsecs do núcleo.

Recusava-se a orbitar e a respeitar as tão dogmáticas normas do domínio gravitacional mas ao mesmo tempo assolava-o o carácter volátil e imprevisível dos impertinentes cometas.

Precisava desesperadamente de encontrar um asteroide que lhe servisse de covil. Um coral. Uma anémona. Colónias ricas e estruturalmente edificadas que albergassem ecossistemas pacíficos, repletos de multidiversidade espiritual.

Um retiro. Requeria-se um retiro. O ominoso peixinho encontrava-se demasiado exposto.