Contrariamente ao que gostaria, nos últimos dias tenho andado a fazer horas extra no meu pouquíssimo acirrante emprego (sendo o pouquíssimo, referente a uma escala na ordem dos picómetros).
O intuito é óbvio, simples e conciso: Ganhar mais dinheiro, pondo assim termo à errática situação financeira que me tem vindo a assolar nos últimos tempos.
Ai a louvara... Sempre me cativou a possibilidade de emancipação e de livre- arbítrio mas ao aperceber-me das suas implicações, em parte associadas a este mágico universo de labuta, a visão romântica e idealista que detinha ,começou a dissipar-se gradualmente como fumaça ao vento.
Na realidade nada é um mar de rosas, até porque “Actioni contrariam semper et aequalem esse reactionem”.
O admirável mundo laboral consegue por vezes engolir-nos de tal modo com as suas façanhas ominosas, que por vezes chega mesmo a adquirir um certo carácter jocoso.
Afogamo-nos com facilidade no tenebroso mar habitado pelo polvo colossal da produtividade, da rentabilidade, da pontualidade, da assiduidade, da imagem, dos rankings, das horas subsidiadas, dos lay-off’s, dos lock-out’s, das meetings, etc etc etc...
Os seus longos, tenazes e flexíveis tentáculos detetam-nos, tateiam-nos e aprisionam-nos com as suas ventosas, chegando mesmo a sugar-nos parte da alma.
Petrificante, não?
Bom, felizmente nem tudo é mau.
Embora não possamos evitar o aprisionamento físico, ainda podemos usufruir de toda uma liberdade mental, que impossibilita que sejam detidas as nossas mais nobres e profundas conjeturas.
Ainda não nos escavacam a mente com brocas de perfuração petrolífera, embora estejamos sim sujeitos à massiva lobotomia dos meios de comunicação e das redes sociais, de maneira que podemos sempre distrair-nos e deleitar-nos com altos voos vagueantes.
Temos ainda como alternativa, a possibilidade de nos embrenharmos a fundo nas entranhas do trabalho, acabando por deixar de parte a realidade e alienarmo-nos por completo. É uma excelente opção para casos de insatisfação e de insucesso pessoal.
Et voilá.
É esta a fulgurante conceção amplamente filosófica que pretendo deixar no ar.
Trabalho: forca ou trampolim?