sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Dolce far niente

Já em tempos, doutas mentes  recorreram a esta locução para exprimir o belíssimo ideal da presunçosa ociosidade despreocupada. 
Desligar da ficha. 
Desconectar-nos do quotidiano e de todas as tarefas, obrigações e preocupações a ele subjacentes.
Simplesmente existir, como diria um caríssimo amigo meu.
Há tanto encanto na arte de nada se fazer...
Absorver os primeiros raios de sol numa fria e soturna manhã de Inverno.
Sentir o cheiro a relva molhada.
Escutar o chilrear dos pássaros.
Saborear a doçura de uma peça de fruta da época.
Regalar-nos com o calor emanado por uma xícara de chá.
Observar levianamente um ente amado.
Conjecturar planos.
Sonhar!
Há que se desfrutar destes pequenos grandes nadas, para que possamos incrementar a nossa capacidade de subsistência num mundo em contínua agitação.
A razão, essa, é muito simples.
A vida é curta de mais para os deixarmos passar despercebidos.



terça-feira, 28 de novembro de 2017

Uma questão de força

Nós, corpos vagueantes num universo infinito, somos como que cometas.
Albergamos um núcleo duro, que constitui o nosso íntimo, uma ténue e flexível coma, onde pairam as nossas ideias, e uma cauda longa e semi desvanecida proveniente de diversificadas pressões e radiações do meio.
Duros mas flexíveis, orbitamos invariavelmente todo o domínio Kepleriano da nossa mísera condição.

Somos vítimas inocentes de todo um vastíssimo campo social, cujas repercussões são inevitáveis.

Forças de maior ou de menor intensidade são pois exercidas sobre nós, tendo por sua vez a capacidade de nos moldar, manter, difundir ou até mesmo modificar o nosso modo de pensar ou de agir.

Influência.
Todo esse poder alheio exercido influencia-nos e tem a habilidade de vencer a inércia acumulada, modificando assim a nossa própria velocidade.

Não havendo como resistir, resta-nos apenas aceitar.
SOMOS meros pêndulos de Newton.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Sorte?

Há que se estar constantemente atento e vigilante ao acaso, para que o bichinho da sorte abandone a sua toca e se faça sentir.
Esta tendência para acontecimentos e circunstancias maioritariamente positivas e favoráveis é infelizmente fortuita, esporádica. Tão efémera e precária quanto a própria existência.
Vive no subsolo, nos confins da obscuridade,enterrada em massivas tocas de bonança, e apenas vem à superfície em circunstancias muito particulares.
Excomunhão.
Execração.
Maldição.
Reprovação.
É na maioria dos casos, como que uma espécie de anátema, referente à condenação de uma doutrina contrária aquela que todos almejamos.
Zomba de nós deliberadamente, chegando, por vezes até, a manifestar atitudes malévolas, irónicas e cruelmente debochadas.
É uma esquiva toupeira e um pássaro esvoaçante.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Disparo fatal



É o fim.

Enquanto milhões se preparam para tentar a sua sorte na selva de bares e discotecas, onde a noite serrada facilita a arte de dissimulação e a captura de presas, no aparente sossego do seu lar, ela observa um vago ponto de exasperação e fixa-o com todas as suas forças. Após a sua respiração ter sido forçadamente sustida durante atemorizantes e intermináveis segundos, inspira profundamente de modo liberto e expedido.
Alvo abatido.

Após o impacto, o seu corpo é como que violentamente arrastado pelas fortes correntes de angústia, acabando finalmente por cair de uma altitude abismal para as profundezas da sua própria existência.

O embate é massivo.

As carnes flácidas são fortemente impelidas para para o fundo da cascata, onde começam calma e serenamente a afundar-se por entre as frias, turbulentas e agitadas águas do desespero. Não há como evita-lo. Não há fuga possível.

No entanto,o que esta tragédia tem de nefasto, perturbador e de desconcertante, tem também de belo, plácido e comovente. Há uma soturna e funesta beleza associada à mórbida condição do exício.

As suas mãos são ávida e estoicamente agarradas por lúgubres e pavorosos monstros marinhos, cuja existência suspeitara desde os primórdios da infância.

Eles existem! São reais.

Abomináveis, hediondos, colossais e repugnantes, conferem às águas um carácter lesivo e fatal.

Nisto um buraco imenso abata-se sobre o fundo do oceano, e quando pensa que não pode cair mais, volta novamente a ser engolida, empurrada e vigiada por estas peçonhentas criaturas.

Entidades estranhas e disformes começam a emergir das sombras e surreais cemitérios subaquáticos são miraculosamente revelados. Luciferescas criaturas saídas de insondáveis sepulturas, começam a persegui-la repressivamente, enquanto anjos e demónios assombram os magnificentes e ostensivos mausoléus, congelando por completo toda a área circundante.

Profundamente atormentada, perde-se integralmente nas virulentas teias da indignação.

O olhar.

Vislumbra aquele olhar ao longe, e como que se de um vórtex se tratasse é a alta velocidade impelida para ele.

Num escoamento giratório onde as linhas de corrente apresentam um padrão espiral, sente-se impelida para um concomitante centro de rotação.

Durante o processo tudo atinge uma velocidade estonteante e a direcção de rotação no sentido anti-horário adoptada pelo vórtice, começa a distorcer formas, imagens e vivências, misturando-as num frenético e umbrático turbilhão.

O poder vertiginoso daquele olhar é hipnotizante.

Rasga a córnea, perfura a pupila e penetra o cristalino, redireccionando e focando a luz para a retina, como que se de uma lente se tratasse.

Lágrimas jorram incessantemente como fortes correntes em rios tempestuosos.

Irrompe aquele olhar deslumbrante e invade desse modo o cerne de todos os seus males.

Bem no centro encontra um revólver apontado na sua direcção.

Não se esconde.

Não procura defender-se.

Abre unicamente o peito e deliberada e pacientemente aguarda pelo disparo.

Em câmara lenta pôde ver o projéctil a percorrer o cano.

Capaz de abandonar o seu próprio corpo, observa em perspectiva a sua pele a ser perfurada pela mortífera bala da desilusão.

No momento em que a primeira gota de sangue jorrante se abate sobre o solo, o vórtex abre-se novamente e é atirada para o seu sofá.

Ainda é sexta feira e a noite caíra por completo.

As pessoas já abandonaram as suas casas e escondem-se agora, por entre a folhagem, perscrutando como predadores as suas vítimas .
As luzes da cidade afrontam a magia do céu estrelado.

(24/06/2017)

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Dipsomania


Uma caneta falha.
Duas.
O planeta gira e eu giro com ele.
Juntos.
Em sintonia.
Perfeita simbiose centrípeta.
Felizmente existe uma terceira caneta que me fora facultada pelas estrelas.
Astros reluzentes que compreendem como ninguém a arte da resiliência, força e supremacia.
As entranhas exaltam-se e o amargo sabor a bílis entorpece as vis e redundantes ideias.
O peão gira e gira...
O fim está absolutamente em aberto.
As ideias fluem, muito embora o foco já esteja distorcido.
As letras desvanecem-se como flores dente-de-leão após sopro de criança.
Criança.
Fonte incontornável de pureza e inocência, apenas equiparada às mais poderosas forças do cosmos.
Retraio-me
Desespero.
Mergulho na intensa vulnerabilidade da débil condição humana.
Imploro ao tempo, que volte para trás, muito embora se saiba de antemão que esta constante da vida desrespeita por completo todo e qualquer principio universal.
O tempo é um fora-da-lei, um marginal. O derradeiro criminoso.
Retrata a distensão de todas as forças de normalidade.
Autointitula-se acutângulo da razão.
37,5 graus de arrebatamento.
Recuo.
Contraio-me.
Interregno de autocomiseração.
Respiro mas o mal já está feito.
As leis gravitacionais não perdoam.
A calma e a serenidade instauram-se por momentos, como que se de um fenómeno de molharias da morte se tratasse.
Terá sido apenas um susto?
Não!
Nova investida.
Aflição.
Tortura.
Acre travo de mágoa e de arrependimento.
Fecho os olhos.
Adormeço.
Quando acordar o mundo continuará a girar e as estrelas guiar-me-ão.
Quem sabe se para o derradeiro colapso; quem sabe se para os regados canteiros de gáudio.
O importante é ir.
Vai!

sábado, 24 de junho de 2017

Displicência

É a hemorragia provocada pela laceração ou ruptura de zelo e afeição.

Ocorre após um trauma e quando aguda, devido ao rompimento abrupto de um grande vaso, pode por vezes ser fatal.

Tudo depende no entanto do volume de extravasamento.

Já se sente uma ligeira taquicardia, primeiro sinal de choque hipovolémico, resultante da tentativa de manutenção do débito de indeterminação.

Os macrófagos, após processo de diferenciação, precipitam-se para o foco da invasão, iniciando assim uma luta desenfreada, na qual por mais que queiramos participar nos é negado o acesso.

Tornamo-nos meros expectadores, que ao constatar não poder intervir na tal batalha interior,sofrem uma exasperante sensação de impotência de excruciante dimensão.

Embora tenhamos consciência da possibilidade de forçar a entrada com catapultas e aríetes, o receio que temos de alastrar ainda mais a infecção sobrepõe-se ao ímpeto que nos move.

Abrandamos antes o ritmo.

Observamos.

Recuamos.

Torcemos então pela derrota dos virulentos agentes invasores e rezamos para que a doença não seja auto-imune.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Alma refugiada

Refugiada.
Por força das circunstancias aquela alma tornou-se refugiada.

Receando pela sua vida, realização e liberdade, viu-se forçada a abandonar o seu lar, rumo a um futuro incerto em terras longínquas e inexploradas.

Vítima de guerras, perseguições, desacordos e intolerância, não encontrou outro caminho que não esse, após anos e anos de batalhas sangrentas, repletas de campanhas militares arrasadas pela falta de táctica e insuficiência de estratégia.
Vencida e derrotada, acabara sumariamente por ser transferida para os primórdios da sua miserável e fúnebre existência.

Malquista e indesejada, é agora como que uma terrível praga ameaçadora das reluzentes e vivazes plantações de trigo, que a muito custo proliferam sob os raios tórridos de um verão abrasador.
Traz consigo, na bagagem, sementes de discórdia e de tumulto, que se alastrarão inevitavelmente como ervas daninhas entre os demais.

Pedra no sapato.

É esta a designativa caracterização que lhe assola o íntimo, quando confrontada com a precariedade infligida por tal demanda. 

Perdida, deambula agora pelo mundo, numa desmedida e insustentável ambivalência de emoções, muito embora ao longe, para lá do nevoeiro entorpecedor, emirja uma pequeníssima edificação de carácter onírico, estruturada num projecto de paz, sob uma sólida base de esperança.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Pauta de despedida


É imperativo alterar-se o registo.

Findem-se os estudos académicos estruturais baseados em modos analíticos de harmonização.

Que cesse por completo o demarcado ritmo oprimente e a claustrofóbica consonância ensaiada.

Abaixo as subordinantes sonatas, levadas a cabo pela ampla e asfixiante esquematização de composição.

Enraíze-se a espontaneidade aleatória, levada a cabo pelo suave e adocicado toque improvisado de natureza efémera, que abre as portas do Éden e desvenda as míticas melodias repletas de serenidade e de placidez.

Transponham-se os limites e prime-se pela sobreposição, partilha, difusão e perpetuação rítmica.

Realce-se, de uma vez por todas, a importância dos fugazes encontros enamorados geradores de acordes, não ignorando contudo as belas e inesperadas dissonâncias daí resultantes.

Anexe-se o lirismo, a subjectividade, a emoção e acima de tudo viva-se a música, já que ao fim e ao cabo, tudo o resto... pouco ou nada importa.

terça-feira, 14 de março de 2017

Vaticinando felicidade


Era um dia como qualquer outro.

O cinzento do céu, abatia-se sobre a vegetação autóctone, onde a inconfundível paisagem repleta de carvalhos,pinheiros e oliveiras, exaltava toda uma pureza e equilíbrio reconfortantes, quando tocada pelos tímidos e ténues raios de luz.

O montado de sobro, albergava tacanhas e desordenadas pastagens e as extensas vinhas davam vida ao arenoso solo esmarrido.

Sentia-se que todo aquele cenário bucólico anteveria algo esplendoroso.

À medida que o incontornável aprimoramento de sentidos ia ganhando terreno após a chegada e processo de reconhecimento, exaltaram-se concomitantemente os quatro humores.

O coração adquirira características metálicas, uma vez congelado pela solenidade da ocasião e amedrontadamente palpitava sob pressão, como pistão no interior de cilindro de motor de explosão.

A tensão e a rigidez entraram inoportunamente em cena e tanto os membros superiores como os inferiores, pareciam apenas responder a estímulos de modo mecânico e dissimulado.

Foi justamente no momento em que tudo parecia prestes a desmoronar-se, que interveio um mago sopro de vida.
Assemelhava-se àquelas tranquilizantes e prazenteiras aragens de fim de tarde.
Era doce, quente e reconfortante. Sereno, terno e consolador.

Emanava tal intensidade, firmeza, segurança e confiabilidade, que apenas em breves instantes reduziu a nada todas as incertezas e hesitações.
Tinha-lhe sido conferida a dádiva de absorver medos, do mesmo modo que o mata-borrão absorvia tinta em época de canetas de pena e foi exactamente aí que se deu a magia.

De olhos postos no infinito, deixou-se levar pelas fluídas correntes do encantamento e experienciou algo fascinante. A combinação da presença do ser que lhe proporcionara tudo aquilo, com a forma como o vento lhe acariciava a face, o intenso cheiro a hidrocarbonetos e a aguda sinfonia orquestrada por cada variação de punho, não tinham explicação. Se aliarmos ainda a tudo isso o harmonioso cenário campestre anteriormente mencionado, obter-se-á nada menos que perfeição.

Uma noção insurgente de alegria e de liberdade nunca antes sentidas invadiram-lhe a alma de serenidade e esperança.
Voou como nunca antes tinha voado, de modo puro e autentico, acabando finalmente por aterrar de forma abrupta sobre aquele solo abençoado, debaixo de uma luz esplendorosa.

Após a aparatosa queda, o sopro aproximou-se e juntos, de olhos postos no firmamento, selaram votos mudos e vaticinaram novos voos conjuntos.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Crash

No decorrer do cumprimento do meu cargo oficioso, fui abordada por um ser tão repugnante, que nem me ocorrem adjectivos que fidedignamente o qualifiquem (o que prova, por si só, que nem é sequer digno de qualquer tipo de qualificação).

Passo a citar:
“-Olhe, vou a uma festa temática dos anos vinte e preciso de roupa. Sabe??! Um vestido curto com franjas ou qualquer coisa do género. Bom, não deve fazer ideia do que estou para aqui a falar, não é?? Não faça caso, eu entendo. Vou mostrar-lhe aqui umas fotos das roupas da época para vermos se percebe. “ - e após todo um discurso altamente arrogante e grosseiro, saca de um iPhone 5312 na tentativa de me rebaixar. Ai, perdão “elucidar”.
A magia que me invadiu nos primórdios do discurso, quando mencionou os loucos anos vinte, dissipou-se instantaneamente, como os copos de Champanhe da altura, assim que se deu por iniciada a hostilidade.

Woooooow

Quem poderia desconhecer uma das mais empolgantes décadas do século XX?
Alegria devassidão e folia.

Um dos mais significativos tornos de mudança, onde o término da primeira guerra mundial, impeliu a sociedade para alterações radicais.

Onde o pós-guerra contribuiu imensamente para que a mulher conquistasse finalmente um lugar de destaque na sociedade, através da admirável emancipação que lhe foi conferida pelo trabalho.

Elegância, charme e sedução aliados a todo um gritante glamour de libertação.

Findou-se a repressão levada a cabo por inúmeros espartilhos físicos e psicológicos e após anos e anos de luta, a silhueta da mulher torna-se finalmente tubular.

O guarda-roupa feminino foi revolucionado por nomes sonantes como o de Mademoiselle Chanel, que não só lançou um dos primeiros perfumes vendidos massivamente em todo o mundo (o Chanel no 5) mas que também introduziu, na nossa indumentária alguns dos traços do vestuário masculino. Madame Vionnet populariza o corte em viés, e a maquilhagem de cariz dramático que procurava captar a magia de uns lábios carnudos e berrantes e de realçar um olhar loucamente tentador e penetrante, ganha terreno.

Os irresistíveis e avassaladores vestidos flapper ganham vida e o provocante corte La Garçonne, curtinho, curtinho,curtinho, adornado por um pequeno e elegantíssimo chapéu de uso indispensável conhecido por cloche, passa a evidenciar todo um pescoço cercado de longos e intermináveis colares de pérolas. O penteado Marcel Waves ganha também grande mediatismo, e a aplicação de fixadores capilares para manter as ondas e reproduzir o estilo, geralmente ornamentado com plumas, torna-se viral.

Nisto, enquanto as mulheres ganham liberdade as saias perdem comprimento.
Os modelitos mais leves, soltos e curtos alimentam na perfeição a febre do Charleston. O calor do Jazz incendeia todos os bares e salões da altura, e a cultura negra começa a ganhar o seu espaço num mundo dominado pela supremacia branca. A realidade previamente estabelecida entra em colapso.

Mas bom... Após o imenso devaneio anterior, limitei-me a proferir que pouco ou nada havia de semelhante para satisfazer o tal ser inqualificável, e aos poucos, lá fui calmamente voltando a entrar no acre e ameno mundinho da confecção, onde não é de se esperar qualquer tipo de aptidão intelectual.

Se ao menos o Crash da bolsa de Nova York tivesse levado ao suicídio certos membros de uma determinada linha de ascendência...

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Deslocalização



O electrão livre está preso.

Ficou retido num labiríntico sistema conjugado onde impera uma abafada aromaticidade repressiva.

As ligações insaturadas passaram a saturá-lo.

Embora salte, no interior da orbital, de átomo em átomo, não é capaz de se conectar.

Por mais que tente, a covalência circundante está muito aquém do esperado.

O híbrido equilíbrio passou a entediá-lo, da mesma maneira que as frias e chuvosas tardes de fim de semana entediam os corações sedentos de acção euforia e empolgação.

Correntes diamagnéticas, sopram timidamente como bravos e revoltos ventos na presença do forte magnetismo instaurado.

O electrão vai só embora acompanhado.

Tratar-se-á apenas de electronegatividade?

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Sentimentos subversivos

O que dá inicio à subversão da alma, é uma abrupta alteração na hierarquia de valores.

Estes, por sua vez, ao traduzirem-se em acções, oscilam livremente entre o espontâneo e o deliberado, por meio de actuações extra-legais, culminando na total corrosão das forças e do poder previamente estabelecidos.

Os turvos e quentes uivos da razão desmoronam-se, e todo e qualquer vestígio de ordem desordena-se.

Segue-se então a tóxica e endiabrada propaganda, onde nos deixamos manipular sistematicamente pelas nossas próprias ideias, através da auto-transmissão controlada da informação parcial que detemos.

A limitação gera insubordinação, o que faz com que abusemos processualmente do que é considerado de direito.

Somos desestabilizados pela ausência de estratégia e derrubados pela incapacidade de resposta.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Egocentrismo


Por norma, quando os planos que delineamos não correm de acordo com as nossas expectativas, tendemos a experienciar um misto de desalento, exasperação e frustração.

Foi justamente o facto de me ter apercebido do estranho rácio de sentimentos que me invadiu numa situação absolutamente trivial e corriqueira, que me levou não só a refletir mas a escrever sobre o assunto.

Estará o universo repleto de modelos egocêntrico com configurações semelhantes às do sistema solar? Será que bem lá no fundo, nos vemos a nós próprios como elementos centrais de um sistema, onde os remanescentes intervenientes e organismos giram à nossa volta?

Vamos então esmiuçar o conceito de egoísmo.

Teoricamente o ego age como intermediário entre os desejos e os mandamentos morais do “eu” , para que nós indivíduos, consigamos satisfazer as nossas necessidades, de acordo com as normas vigentes dos parâmetros sociais.

Acessível, certo?

É ainda de senso comum, o facto de aspirarmos a todo o custo alcançar o que pretendemos. Desde que o mundo é mundo, que a humanidade procura evoluir satisfazendo as suas necessidades (das mais básicas às mais complexas), tendo portanto em vista saciar as suas carências.

Existem naturalmente formas distintas de as atingir, umas mais ortodoxas do que outras, mas de qualquer modo todos nós já encarnámos a dada altura, o demónio da manipulação. Mesmo que até tenhamos bom íntimo e que procuremos assegurar o bem- estar alheio, se este convergir em demasia com os nossos mais profundos interesses, dá-se por iniciado um temível conflito existencial.

Onde quero chegar é ao seguinte: Quando confrontados com determinado entrave oponente ao que almejamos, não mediremos a situação com régua e esquadro procurando traçar os azimutes do que nos é mais conveniente? Até que ponto estará isso errado? Com maior ou menor exaltação da própria personalidade, não seremos afinal de contas, todos egoístas?

Se o leitor questiona a validade lógica destas interrogações, veja as coisas por este prisma.

Quer admitamos quer não, não podemos evitar o facto de querermos que a água seja levada ao nosso moinho.

Nós próprios somos tudo o que realmente temos.

Nós vamos ficar connosco para sempre, já que, e por mais ambíguo que possa parecer, somos a única coisa que efetivamente possuímos.

Não podemos evitar o facto de estarmos sempre e para sempre acorrentados a nós próprios. Essa condicionante faz com que mais cedo ou mais tarde nos amemos demais, e quem sabe um dia, excessivamente.

Como vencer afinal com dignidade a batalha interior que se inicia quando o universo não conspira a nosso favor?

Sermos egoístas fará de nós más pessoas?

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Assimptotas

Tal como no temível, apavorante e complexo cálculo diferencial, os limites da vida podem sofrer uma análise minuciosa, definindo-se desse modo derivadas e aspectos de continuidade.
Há tantas variáveis...
Medo, hesitação, fragilidade ,insegurança, conformismo, negação, audácia, resiliência, coragem, independência, fé, emancipação;
Contudo tanto as independentes como as dependentes partilham a mesma extensão, complexidade e acima de tudo a mesma indefinibilidade. 

Somos funções, que vivem em função de determinada função.

O nosso comportamento é irregular, e à medida que o seu argumento se aproxima de um determinado valor, converge para tudo ou para nada.
Tendemos inevitavelmente para algum lado, muito embora não sejamos por vezes capazes de calcular para que limite se desviam os dogmas da existencialidade. 

Zero ou infinito?

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Expediente



Contrariamente ao que gostaria, nos últimos dias tenho andado a fazer horas extra no meu pouquíssimo acirrante emprego (sendo o pouquíssimo, referente a uma escala na ordem dos picómetros).
O intuito é óbvio, simples e conciso: Ganhar mais dinheiro, pondo assim termo à errática situação financeira que me tem vindo a assolar nos últimos tempos.

Ai a louvara... Sempre me cativou a possibilidade de emancipação e de livre- arbítrio mas ao aperceber-me das suas implicações, em parte associadas a este mágico universo de labuta, a visão romântica e idealista que detinha ,começou a dissipar-se gradualmente como fumaça ao vento.

Na realidade nada é um mar de rosas, até porque “Actioni contrariam semper et aequalem esse reactionem”.

O admirável mundo laboral consegue por vezes engolir-nos de tal modo com as suas façanhas ominosas, que por vezes chega mesmo a adquirir um certo carácter jocoso.

Afogamo-nos com facilidade no tenebroso mar habitado pelo polvo colossal da produtividade, da rentabilidade, da pontualidade, da assiduidade, da imagem, dos rankings, das horas subsidiadas, dos lay-off’s, dos lock-out’s, das meetings, etc etc etc...

Os seus longos, tenazes e flexíveis tentáculos detetam-nos, tateiam-nos e aprisionam-nos com as suas ventosas, chegando mesmo a sugar-nos parte da alma.

Petrificante, não?
Bom, felizmente nem tudo é mau.
Embora não possamos evitar o aprisionamento físico, ainda podemos usufruir de toda uma liberdade mental, que impossibilita que sejam detidas as nossas mais nobres e profundas conjeturas.

Ainda não nos escavacam a mente com brocas de perfuração petrolífera, embora estejamos sim sujeitos à massiva lobotomia dos meios de comunicação e das redes sociais, de maneira que podemos sempre distrair-nos e deleitar-nos com altos voos vagueantes.

Temos ainda como alternativa, a possibilidade de nos embrenharmos a fundo nas entranhas do trabalho, acabando por deixar de parte a realidade e alienarmo-nos por completo. É uma excelente opção para casos de insatisfação e de insucesso pessoal.

Et voilá.
É esta a fulgurante conceção amplamente filosófica que pretendo deixar no ar.

Trabalho: forca ou trampolim?

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Impasse 


 A estrutura não está completa.

O protótipo foi corretamente executado mas falta-lhe o ímpeto. O espírito. Falta-lhe a alma.

É como que uma espécie de Pinóquio, ainda boneco de madeira, sem a intervenção da fada azul.

À noite, continua a pedir-se encarecidamente às estrelas e a todos os restantes corpos celestes luminosos que a história se transforme em algo real e palpável.

A magia é complexa, caprichosa, repleta de mistérios inexplorados e aparenta ter vontade própria mas de qualquer modo, se esta indomável força sorriu a Geppetto, por que não haveria de sorrir novamente?

Pontualmente vislumbravam-se pequenos flashes da sua essência. A majestosa nuvem de magia invadia aquele pobre universo em disrupção, e espontaneamente regava tudo à sua passagem, surpreendendo e deslumbrando por completo todos os seus intervenientes. Uma enorme chuvada tropical assolava o espaço, fertilizando cada pedacinho de alma com aquelas esperançosas e ricas águas repletas de vida. Em contrapartida, ao alvorecer, tudo voltava redundantemente à estaca zero. Aos primeiros ténues raios de luz, o feitiço era quebrado, e com ele, todo o precioso encantamento encerrado lá bem no fundo do baú da impaciência e da recordação.

Ultimamente não chove nem faz sol. As magnificas precipitações de magia cessaram por completo e o sol deixou de raiar. Um intenso nevoeiro abateu-se sobre a região, distorcendo dura e severamente toda a realidade remanescente.

Por mais que se procure erguer a mítica e alada varinha de condão da fada azul, o teimoso e obstinado grilo falante não o permite. A sua voz estridente e repetitiva acaba sempre por consciencializar-nos, confrontando-nos com a dura realidade que preferimos a todo o custo ignorar.

Agora é que são elas. Chegou-se ao tão temido impasse.


terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Impaciência


Erva daninha encarquilhada e colossal, que atormenta devastadoramente as pobres almas ansiosas.

Atitude pela qual os que apresentam baixos níveis de tolerância, são remetidos para uma interminável espiral de frustração abismal.

Contração espasmódica involuntária do diafragma, onde o ar sôfrego, após movimentos alternados de distensão e de relaxamento, se movimenta com sóbria avidez desesperante.

Ventos álgidos da Patagónia, que dilaceram a psique e varrem velozmente toda e qualquer réstia de esperança à sua passagem.

Raiz amarga e intrigante de alcaçuz, que de forma lenta e deliberada, nos vai torturando com o seu poderoso e intenso sabor amargo.

Areia movediça, provocada por lençóis freáticos de expectação, que ao não oferecerem suficiente resistência, nos impulsionam  irremediavelmente para as profundezas da insatisfação.

E agora? Como proceder quando o tempo que marca a realidade, não se ajusta às nossas mais vis expectativas?

domingo, 1 de janeiro de 2017

A caixa (Parte VII)

Perdia-se e reencontrava-se inúmeras vezes.

Betta estava preso num bizarro e arrebatador labirinto galáctico em forma de espiral.
Cercado de gases hediondos e de poeiras sedutoras, sentia-se como que no interior de uma densa nuvem molecular, onde o brilho dos aglomerados corpos celestes, quase se anulava com o dissimulado vislumbre da matéria negra.

Ventos aguçados fustigavam-no drasticamente, impelindo-o por vezes para o desassossego dos braços marginais, a parsecs e parsecs do núcleo.

Recusava-se a orbitar e a respeitar as tão dogmáticas normas do domínio gravitacional mas ao mesmo tempo assolava-o o carácter volátil e imprevisível dos impertinentes cometas.

Precisava desesperadamente de encontrar um asteroide que lhe servisse de covil. Um coral. Uma anémona. Colónias ricas e estruturalmente edificadas que albergassem ecossistemas pacíficos, repletos de multidiversidade espiritual.

Um retiro. Requeria-se um retiro. O ominoso peixinho encontrava-se demasiado exposto.