quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Hipócrita (Parte II)

Era um daqueles dias que antecedem uma enorme tempestade.

Embora não fosse palpável, sentia-se uma atmosfera altamente carregada.
As nuvens, sobrepostas, abatiam-se sob o céu de Outono, como que criando uma espécie de manto mesclado em tons de azul e cinza claro.
Deslocavam-se rapidamente, gerando um padrão nebuloso a cada instante, que por sua vez alterava voluvelmente, toda a configuração celeste.

Os diligentes plátanos semi-nús, tilintavam ao sabor do vento.
Verdes, amarelos, frágeis, quebradiços e delicados.
As suas folhas caroténicas balbuciantes, dançando ritmicamente a cada sopro alado, lembravam um fortuito espetáculo de bailado clássico.

Os transeuntes, fustigados pelo gélido frio que se abatera , deslocavam-se freneticamente de modo mecânico e desprovido de animismo palpável. Caminhavam somente porque sim. Não por possuírem qualquer tipo de vontade própria, mas porque algo oculto e inevitável os impelia para tal.
Até mesmo o livre arbítrio se deixara corromper pelo temporal que aos poucos se fazia anunciar.

Não só os carros circulavam ao compasso de toda esta fúnebre melodia desconcertada, como até mesmo o comboio, triste locomotiva amofinada, aprisionada nos seus rígidos e pesados carris, parecia fazê-lo como uma inércia assimtomática.

Estava tudo como que em suspenso, esperando apenas que a primeira gota de chuva se abatesse sobre o solo, para se dar por iniciada a batalha que acordaria aquela esquálida e esmorecida vila adormecida.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Hipócrita (Parte I)

Édipo desconhecia a importância da solenidade pelo julgamento requerida.

É certo, que todos os juízos de valor são por natureza desprovidos de justiça, sendo por conseguinte injustos mas faltava-lhe no entanto o tacto necessário durante o processo de triagem.

Fora desde sempre um terrível avaliador: de ideias, de pessoas, de situações; de toda e qualquer forma de justa e coerente avaliação.

Baseou-se invariavelmente em pareceres e em suposições rebuscadas, que lhe eram proporcionadas pela adubada mente que possuía.

E não, não se trata de uma incongruência.

Embora estrumado, o seu espírito caminhava a passos largos para a infertilidade de raciocínio. Ciclos e ciclos de queimadas, seguidos de plantações de monoculturas ideológicas , devastaram por completo aquele solo.

Pobre Édipo.

Desconhecia que é de longe sabido que nenhum conhecimento obtido pela experiência acerca do que quer que seja, poderá alguma vez gerar claramente uma exacta e distinta apreciação.

Necessitava antes de adquirir um parecer holístico-generalizado, geralmente citado como “uma visão mais abrangente”.

Mas basta!

Paremos de sentenciá-lo!

Édipo não passava de uma indigente criatura atarantada.

sábado, 3 de novembro de 2018

Evasão

F umaça
         Abandono
         Desistência
         Pretexto
         Oblíquo traço de incompreendida desavença;

A ngústia
         Retirada
         Subterfúgio
         Escapatória
         Deliberado transtorno sobre pena de juramento;

D ispersão
          Efúgio
          Fuga
          Obliquidade
          Esvaecido ponto de desintegrada correlação;

O ráculo
           Escoamento
           Mitigação
           Deserção
           Saída bipolar  inviabilizadora do auto-extermínio.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

A doença do século


Uma nova doença, denominada padronização, tem vindo a alastrar-se e a abater-se sem escrúpulos, sobre a população mundial.

Trata-se de uma patologia altamente infecciosa, causadora de irreversíveis distúrbios mentais, provocados essencialmente pelo excesso de regras e por um adestramento generalizado.

Existem variadíssimos sintomas, podendo destacar-se desde já alguns dos mais relevantes: Aparência física e comportamentos semelhantes; falta de personalidade; inexistência de originalidade; sonhos e ambições idênticas; plágio recorrente.

A tendência é que as idiossincrasias, isto é, aquilo que cada indivíduo possui de único, deixe de vez de existir diante de um mundo tão pragmático e controlado.

A padronização procura confinar-nos a vidas superficiais e sentenciar-nos a uma existência totalmente ignóbil e desinteressante.

Conversar incessantemente sobre os mesmos assuntos , responder de modo contido e programado ao que quer que seja e estar acima de tudo de acordo com todos os parâmetros adequados à vida em sociedade, são alguns dos seus predicados.

O vírus, procura que nos cinjamos ao sistema seguindo normas pré-determinadas, tornando-nos, em última instância todos iguais. Assim sendo, a vida acaba por se transformar numa grande linha de produção, na qual, de forma sequencial, nos vão moldando a uma única forma comum: todos a fazer as mesmas coisas, ao mesmo tempo e ao mesmo ritmo, de modo a que uma vez todos iguais e sem qualquer peculiaridade que nos possa diferenciar, nos tornemos maleavelmente submissos.

Plasticina humana.
Sim. Quem não se curar tornar-se-á plasticina humana.

Puro lixo existencial.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Espaço sideral (III)


Era como que uma espécie de obstrução.
O caminho de Y estava bloqueado.
Uma vez tendo tudo ido pelo relo abaixo, precisava o quanto antes de desentupir a canalização.
Todo e qualquer vestígio de detrito encontrava-se depositado lá bem no fundo da sua alma, o que impossibilitava qualquer tipo de circulação, saída, passagem.

Soda cáustica e meia chávena de vinagre? Insuficiente!

Neste caso particular havia mesmo necessidade de se retirar o sifão.

A determinada altura, a sua vida tinha sido amaldiçoada.
Embora fosse incapaz de precisar quando, onde, porquê, ou por quem, era facto consumado.
Tratava-se de um daqueles acontecimentos sobrenaturais caracterizados pela suprema adversidade e incoerentes manifestações de azar.

À semelhanças das maldições presentes em relatos bíblicos, esta apenas poderia ser revogada quando uma entidade superior interviesse e promovesse a sua libertação.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Espaço sideral (II)

Todo o cenário envolvente, remetia-o para um artigo que lera em tempos, de um tal Ortega y Gasset.
Para sua tremenda infelicidade Y, estava bem familiarizado com este conceito.
Era pois, por esse senhor, defendida a predominância de um novo tipo de homem intitulado “homem- massa”,cuja conduta e estrutura psicológica muito deixava a desejar.

Tratava-se portanto de um império, completamente saturado de pessoas desinteressantes, incapazes de nada oferecerem além de seu primitivismo intelectual.

Tudo se baseia numa nativa e radical impressão de que a vida é fácil, abastada, sem grandes limitações trágicas; portanto, cada indivíduo médio encontra em si uma sensação de domínio e triunfo, que o convida a afirmar-se a si mesmo e considerar bom e completo o seu haver moral e cognitivo.

Este pedante auto-contentamento, leva-o a fechar-se hermeticamente, a não ouvir, a não pôr em tela de juízo as suas opiniões e a não contar verdadeiramente com os demais.
Piorando um pouco mais, verifica-se ainda que embora usufrua das benesses da civilização, não tem qualquer interesse pelos princípios que estão na base da sua formação e sustentação.

Na realidade o verdadeiro degredo, era sim conhecer uns tantos espécimes tediosamente vulgares, que aspiravam a todo o custo deixar a sua própria pegada de mediocridade neste mundo.

terça-feira, 3 de abril de 2018

Espaço sideral (I)

Existia, naquele mundo, uma enorme pressão social que os impelia para a convivência.
Os nativos, nasciam, cresciam, viviam e morriam inter-relacionados uns com os outros, na vasta imensidão daquele caricato universo.

Na realidade, um dos aspectos mais importantes do exercício pleno da existência daquele povo, assentava na laboriosa arte de conviver.
Tratava-se não só de um íngreme e árduo caminho repleto de sinuosos trilhos, mas também de uma aprendizagem significativa que interpelava as múltiplas inteligências, emoções, sentimentos, apegos e aceitações dos demais.

As normas eram bem claras! Encontrarem-se sadiamente vinculados, significava respeitarem com honestidade e responsabilidade, tanto os outros como a si mesmos, aprenderem a compartilhar conquistas e frustrações, bem como reconhecerem a igualdade na diversidade.

Y preferia o vácuo parcial. Aquele gélido vazio apenas habitado por uma baixíssima densidade de partículas! Frio, muito frio! Ansiava desesperadamente pela subversão dos valores previamente estipulados e há séculos em vigência. Idealizava uma revolução. Uma revolução sideral.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Morosidade



Chega doce suave e vagarosa como os surreais lençóis do Maranhão.

Tão bela, tranquila e reluzente.

Infindáveis lagoas de vagar, que percorrem calma e serenamente as mentes desafogadas que se deixaram corromper pelo erróneo vagar.

Orla.

Sedimentos de expectativas e conjecturas levados pelo vento.

Areias.

Dunas de coisa nenhuma.

Oásis de desassossego onde se abate um orvalho de tédio.

Desacerto.

Ausência de nitidez.

Réstia de esperança perdida num universo de quedo tumulto.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Glacial (parte I)

Frio.
Sentia frio.
Uma álgida e parcimoniosa sensação de esmorecimento apoderava-se do seu corpo e apropriava-se vorazmente da sua alma.
Dura.
Severa.
Inclemente.
Ininterrupta.
Sentia-se como que um metal desprotegido em contacto directo com o ar.
Claramente desapontada e amedrontada, indagava-se sobre o infeliz processo de corrosão que sobre ela se abatera.
-”O que te falta, diabos?”- interpelava-se vezes e vezes sem conta.
Tinha a impressão de viver num mundo insuficiente para si.
Era como que se no seu nascimento, tivesse escapado a um naufrágio e posteriormente tivesse sido aprisionada por um grupo de pessoas minúsculas, ao estilo Lilliput.
Gulliver dos tempos modernos, sempre desenquadrada e em busca de qualquer coisa desconhecida, vivia apenas a dois palmos da realidade.
Nada era para si suficientemente bom, quando devidamente sondado e analisado.
Os padrões de qualidade pelos quais se regia eram demasiado utópicos.
Criara, ao logo dos anos, quimeras e quimeras de esterco, onde agora se afundava cada vez mais.
E mais.
E mais.
E mais...