sexta-feira, 27 de maio de 2016

Refogado

Ao ralo fio de azeite da curiosidade, adicionou-se a inocência e a candura finamente picadas e regou-se tudo com um inebriante vinho meio-seco, encorpado e voluptuoso.
Seguiu-se a carne. Ai, a carne.

Pedaço de músculo, corte barato. Fibras musculares e tecidos conjuntivos, quase que propositadamente escolhidos, dos destroços de um matadouro em ruínas, com o intuito de gelatinizar o colagénio da alma durante a calcinação.
Ferveu. Oh, como ferveu!

Pedaços firmes, vigorosos e inflexíveis, que se foram vagarosamente deformando, ao som do fugaz borbulhar do preparado. Horas e horas de zelo, tenacidade e devoção. Veraz e fidedigna entrega total.
Delírio.
Euforia.
Excentricidade.
Efervescência indomável, proveniente das enigmáticas entranhas da fermentação anaeróbia do sentimento.

Dias, semanas, meses, anos… O tempo escoa.
O lume, outrora alto, dá lugar a um ameno braseiro e com ele toda uma nova cognição vem ao de cima.
Enquanto a água evapora, o duro é amaciado e o caldo ganha textura e profundidade.
O resultado não poderá deixar de ser um aromático, suculento e delicioso molho de nostalgias adensadas pelo tempo.

Ai, o tempo...
Com ele tudo ganha uma nova dimensão, muito embora o cozinhado não cesse de refogar. 
Pois! Estranha obstinação.

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