quarta-feira, 26 de outubro de 2016

A caixa (parte VI)



Wimma era mestre, rainha e senhora de técnicas de ilusão e dissimulação.
Qual urso polar preto com pelos translúcidos…
Quais biocromos associados a absorção seletiva…

Não!

Considerava a camuflagem absolutamente desleal.
Ao invés disso recorria ao mimetismo.
Sim. Wimma, a caixa, era sem dúvida portadora de características que evoluíram especificamente para se assemelhar com as de outras espécies.
Interagia directamente com os outros organismos, aparentemente idênticos e deixava-os simplesmente iludirem-se pelo elevado grau de similaridade que possuíam.

Tão simples quanto isto. Básico processo de evolução convergente, meus caros.

Esta particular caixinha não procurava dificultar a sua detecção na circunvizinhança.
Muito pelo contrário.
Fazia questão de se fazer notar, de modo vistoso e seguro, exibindo aquele acintoso olhar característico. Oh, como era encantador aquele sorriso petulante…

O jogo que jogava era limpo. As cartas eram devidamente embaralhadas e distribuídas por crupiês com formação especializada no casino da vida. Não procurava de forma alguma contornar as regras, via processos sugestivos, velhacos, desleais ou desonestos.
Honra, decoro e dignidade encontravam-se acima de tudo, muito embora não abdicasse de lançar, sobre pano verde, os seus mais bem guardados trunfos.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

A caixa (Parte V)

Ouvira falar de peixes que haviam outrora sucumbido à lenhosa e ardente fogueira do encantamento. Pobres e singelos mortais, cujas brânquias se inflamaram de tal modo, que o processo de hematose chegara a cessar por completo.
Inalaram sofregamente aquela doce e inebriante fragrância de júbilo e quando se aperceberam... Bom, já era tarde demais.
Tombaram simplesmente como rubicundas maçãs maduras em pomares veraneantes.
Pum, caíram e pronto.
Ao que parece, e de acordo com Keller, o limpa fundos de serviço, era algo que até acontecia com significativa frequência.
-Não se brinca com a força da gravidade. - Repetia vezes e vezes sem conta.
-Quem ousa aventurar-se é impreterivelmente mortificado, sem dó nem piedade, por toda uma esmagadora aceleração concomitante.
O empuxo debaixo deste mar é inevitável.
Tão inevitável quanto a morte.
Quando expelimos ou aceleramos uma massa do que quer que seja em determinada direcção, essa mesma massa causará invariavelmente uma força de igual magnitude em sentido oposto.
Não há como evitá-lo - retorquiu.
- É assim porque sim!

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Pântano



Era belo, escuro, tentador e convidativo. Uma enorme depressão de terreno barrento que albergava algumas das mais encantadoras pérolas da existencialidade.

Águas paradas, pouco profundas, suspensas num imenso manto de impermeabilidade dualista, provocado por impertinentes planícies mal drenadas.

Tal como os fascinantes nenúfares que ali se encontravam e se apoderavam do cenário pitoresco, possuía umas quantas folhas submersas, algures no submundo da sua alma e outras tantas livremente flutuantes. As últimas, emanavam uma radiância exuberante e exibiam-se resplandecentemente à tona d’água. Brilhavam pois como petulantes pirilampos bioluminescentes em época de acasalamento. Quanto às alagadas pouco havia a acrescentar. Eram tóxicas e funestas mas ao mesmo tempo parte integrante da sua essência.

A remanescente vegetação era densa. Tão densa quanto os seus mais preciosos e inatingíveis sonhos. Parecia até suportar espontaneamente o peso da sua avultadíssima bagagem nostálgica. Decomposição. Estava a ser invadido por aquela estranha matéria em decomposição, que invariavelmente o penetrava necroticamente e se embrenhava naquele profundo, majestoso e inusitado covil de perdição, caminhando à deriva num fascinante e aterrador pântano de incredulidade e indeterminação.

sábado, 8 de outubro de 2016

A caixa (Parte IV)

Emanava delicadeza gentileza e cortesia.
Nobreza no seu mais puro estado de fusão.
Era simples, muito simples, embora revelasse um soberbo nível de complexidade.
Extasiante. A sua complexidade representava um somatório de particularidades extasiantes.
Fazia parte daquele reduzidíssimo nicho de seres divinamente inebriantes que vivem à margem do inteligível.
Era como que um atraente e arrebatador holograma de perfeição a apenas dois palmos da realidade. Inacreditável.
Betta estava perplexo. Apenas detectara todo esse magnetismo graças à sua vasta rede de sensores.
Embora se encontrassem em inactividade há anos e anos ,constatara que ainda desempenhavam o seu papel da melhor forma. Arcaicos e rudimentares talvez mas não obsoletos. O que interpretara inicialmente como sendo uma inconveniente interferência, ou um mero ruido de fundo, era afinal aquilo que tanto almejara.
Felizmente, os minuciosos dispositivos por ele criados, conseguiram captar e responder mensurável e analogicamente aquela faustosa entropia de estímulos sensoriais.
Mal podia acreditar.
Era real.
Era quase palpável. E com isso, aquele doce rasto deslizava no interior dos seus pensamentos, do mesmo modo que os mais bem treinados patins deslizam num grandioso rinque de patinagem. Meiga e suavemente quebravam sem custo o gelo da sua alma e dilaceravam de modo simples e espontâneo as trancas do seu coração.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

A caixa (parte III)

Por mais que procurasse aproximar-se e perscrutar o interior da misteriosa caixinha, Betta não conseguia enxergar o que quer que fosse.
Rondara inúmeras vezes a região em que esta se encontrava, comedida e cautelosamente, em largos movimentos circulares ascendentes mas… nada.
A caixa parecia ser impenetrável. Quanto mais se aproximava, mais inacessível esta se tornava e mais se desvanecia o seu doce e sereno murmurar.
Esta intrigante caixinha não se deixava impressionar por ocasiões e circunstancias soalheiras mas antes pela amena humidade do crepúsculo.
A sua essência recolhia-se para dentro de uma redoma opaca, tal como um caracol mole e carnudo se recolhe na sua concha em situações de adversidade, dissimulando deste modo qualquer remanescente vestígio da sua existência.
Embora em torno de Betta tudo parecesse assumir contornos francamente misteriosos, a curiosidade e a perseverança teimavam em não o abandonar.
De modo sorrateiro e em jeito travesso, decidira continuar paulatinamente a sua busca, aguardando quem sabe, que os castelos de areia começassem a ceder.