quarta-feira, 28 de setembro de 2016

A caixa (parte II)

De um momento para o outro, esfumara-se por completo todo o seu carácter ectotérmico. Uma minúscula chama ganhara vida no seu interior e logo tratara de estabilizar tudo o que de instável e de irregular ali existira outrora.
Betta, rodopiava alegremente naquelas recém-oxigenadas águas, purificadas pela turbulenta agitação daquela ribombante melodia.
A sua cauda azul-cobalto, em forma de véu, com reflexos em turquesa, ardósia e ametista, brilhava intensamente à medida que rompia a barreira fluida do espaço-tempo.
Experienciava uma incontrolável sinestesia, que lhe parecia ser causada por um vasto rol de fenómenos inexplicáveis, provavelmente provocados por alguma enigmática e indefinível condição neurológica.
Nadar.
Ele só queria nadar.
Nadar e rodopiar.
Rodopiar e piruetar.
Piruetar e nadar.
Nadar, vaguear e devanear.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

A caixa (parte I)

E algures, no fundo do baú obscuro de todas aquelas dúvidas e incertezas, algo reluzira lustrosamente.
Hermeticamente fechada e por baixo de forros, cobertas, faixas e ataduras onerosamente sufocantes, jazia uma caixinha perfeitamente trivial.
Caracterizada essencialmente pela despretensiosidade, a modesta canastra parecia procurar segredar-lhe algo deveras revelador.
Tardou a escutá-la, já que a atenção não era o seu forte mas a dada altura, para sua grande admiração, a caixinha começara a cantarolar alto, muito alto, num timbre estranhamente harmonioso e cativante.
Ganhara tais proporções aquele inusitado bramido, que como que se de uma revelação se tratasse, tivera a nítida certeza de que o que daí adviria, estaria prestes a ganhar contornos francamente imaculados.

sábado, 10 de setembro de 2016

Repressão

Vivemos em constante repressão.
Não passamos de insignificantes partículas de gás, em permanente e aleatório movimento, encerradas numa caixa em que cuja pressão exercida sobre o exterior, provocada pelas constantes colisões da vida, pouco ou nada mossa.
Deixamo-nos reger pela triste inibição consciente e espontânea do desejo.
Vivemos em consumado acto de subordinação.
Castigo? Punição? Controle ou penalização?
A realidade é que o excesso acrescido de coação exercida pelo mundo exterior, esmaga o êmbolo dos desígnios divinos e destrói tudo, inclusivamente o já apenas vestigial equilíbrio remanescente.
O processo de escoamento avista-se ao longe. Bem ao longe.  Raramente emergem gradientes de temperatura e os volumes, esses, pouco ou nada variam.
Maldito destino sentenciador.