terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Crash

No decorrer do cumprimento do meu cargo oficioso, fui abordada por um ser tão repugnante, que nem me ocorrem adjectivos que fidedignamente o qualifiquem (o que prova, por si só, que nem é sequer digno de qualquer tipo de qualificação).

Passo a citar:
“-Olhe, vou a uma festa temática dos anos vinte e preciso de roupa. Sabe??! Um vestido curto com franjas ou qualquer coisa do género. Bom, não deve fazer ideia do que estou para aqui a falar, não é?? Não faça caso, eu entendo. Vou mostrar-lhe aqui umas fotos das roupas da época para vermos se percebe. “ - e após todo um discurso altamente arrogante e grosseiro, saca de um iPhone 5312 na tentativa de me rebaixar. Ai, perdão “elucidar”.
A magia que me invadiu nos primórdios do discurso, quando mencionou os loucos anos vinte, dissipou-se instantaneamente, como os copos de Champanhe da altura, assim que se deu por iniciada a hostilidade.

Woooooow

Quem poderia desconhecer uma das mais empolgantes décadas do século XX?
Alegria devassidão e folia.

Um dos mais significativos tornos de mudança, onde o término da primeira guerra mundial, impeliu a sociedade para alterações radicais.

Onde o pós-guerra contribuiu imensamente para que a mulher conquistasse finalmente um lugar de destaque na sociedade, através da admirável emancipação que lhe foi conferida pelo trabalho.

Elegância, charme e sedução aliados a todo um gritante glamour de libertação.

Findou-se a repressão levada a cabo por inúmeros espartilhos físicos e psicológicos e após anos e anos de luta, a silhueta da mulher torna-se finalmente tubular.

O guarda-roupa feminino foi revolucionado por nomes sonantes como o de Mademoiselle Chanel, que não só lançou um dos primeiros perfumes vendidos massivamente em todo o mundo (o Chanel no 5) mas que também introduziu, na nossa indumentária alguns dos traços do vestuário masculino. Madame Vionnet populariza o corte em viés, e a maquilhagem de cariz dramático que procurava captar a magia de uns lábios carnudos e berrantes e de realçar um olhar loucamente tentador e penetrante, ganha terreno.

Os irresistíveis e avassaladores vestidos flapper ganham vida e o provocante corte La Garçonne, curtinho, curtinho,curtinho, adornado por um pequeno e elegantíssimo chapéu de uso indispensável conhecido por cloche, passa a evidenciar todo um pescoço cercado de longos e intermináveis colares de pérolas. O penteado Marcel Waves ganha também grande mediatismo, e a aplicação de fixadores capilares para manter as ondas e reproduzir o estilo, geralmente ornamentado com plumas, torna-se viral.

Nisto, enquanto as mulheres ganham liberdade as saias perdem comprimento.
Os modelitos mais leves, soltos e curtos alimentam na perfeição a febre do Charleston. O calor do Jazz incendeia todos os bares e salões da altura, e a cultura negra começa a ganhar o seu espaço num mundo dominado pela supremacia branca. A realidade previamente estabelecida entra em colapso.

Mas bom... Após o imenso devaneio anterior, limitei-me a proferir que pouco ou nada havia de semelhante para satisfazer o tal ser inqualificável, e aos poucos, lá fui calmamente voltando a entrar no acre e ameno mundinho da confecção, onde não é de se esperar qualquer tipo de aptidão intelectual.

Se ao menos o Crash da bolsa de Nova York tivesse levado ao suicídio certos membros de uma determinada linha de ascendência...

1 comentário:

  1. ahah era lindo que lhe tivesses dado esta lição de história!! Perdia logo a vontade de ir à festa.

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