quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Disparo fatal



É o fim.

Enquanto milhões se preparam para tentar a sua sorte na selva de bares e discotecas, onde a noite serrada facilita a arte de dissimulação e a captura de presas, no aparente sossego do seu lar, ela observa um vago ponto de exasperação e fixa-o com todas as suas forças. Após a sua respiração ter sido forçadamente sustida durante atemorizantes e intermináveis segundos, inspira profundamente de modo liberto e expedido.
Alvo abatido.

Após o impacto, o seu corpo é como que violentamente arrastado pelas fortes correntes de angústia, acabando finalmente por cair de uma altitude abismal para as profundezas da sua própria existência.

O embate é massivo.

As carnes flácidas são fortemente impelidas para para o fundo da cascata, onde começam calma e serenamente a afundar-se por entre as frias, turbulentas e agitadas águas do desespero. Não há como evita-lo. Não há fuga possível.

No entanto,o que esta tragédia tem de nefasto, perturbador e de desconcertante, tem também de belo, plácido e comovente. Há uma soturna e funesta beleza associada à mórbida condição do exício.

As suas mãos são ávida e estoicamente agarradas por lúgubres e pavorosos monstros marinhos, cuja existência suspeitara desde os primórdios da infância.

Eles existem! São reais.

Abomináveis, hediondos, colossais e repugnantes, conferem às águas um carácter lesivo e fatal.

Nisto um buraco imenso abata-se sobre o fundo do oceano, e quando pensa que não pode cair mais, volta novamente a ser engolida, empurrada e vigiada por estas peçonhentas criaturas.

Entidades estranhas e disformes começam a emergir das sombras e surreais cemitérios subaquáticos são miraculosamente revelados. Luciferescas criaturas saídas de insondáveis sepulturas, começam a persegui-la repressivamente, enquanto anjos e demónios assombram os magnificentes e ostensivos mausoléus, congelando por completo toda a área circundante.

Profundamente atormentada, perde-se integralmente nas virulentas teias da indignação.

O olhar.

Vislumbra aquele olhar ao longe, e como que se de um vórtex se tratasse é a alta velocidade impelida para ele.

Num escoamento giratório onde as linhas de corrente apresentam um padrão espiral, sente-se impelida para um concomitante centro de rotação.

Durante o processo tudo atinge uma velocidade estonteante e a direcção de rotação no sentido anti-horário adoptada pelo vórtice, começa a distorcer formas, imagens e vivências, misturando-as num frenético e umbrático turbilhão.

O poder vertiginoso daquele olhar é hipnotizante.

Rasga a córnea, perfura a pupila e penetra o cristalino, redireccionando e focando a luz para a retina, como que se de uma lente se tratasse.

Lágrimas jorram incessantemente como fortes correntes em rios tempestuosos.

Irrompe aquele olhar deslumbrante e invade desse modo o cerne de todos os seus males.

Bem no centro encontra um revólver apontado na sua direcção.

Não se esconde.

Não procura defender-se.

Abre unicamente o peito e deliberada e pacientemente aguarda pelo disparo.

Em câmara lenta pôde ver o projéctil a percorrer o cano.

Capaz de abandonar o seu próprio corpo, observa em perspectiva a sua pele a ser perfurada pela mortífera bala da desilusão.

No momento em que a primeira gota de sangue jorrante se abate sobre o solo, o vórtex abre-se novamente e é atirada para o seu sofá.

Ainda é sexta feira e a noite caíra por completo.

As pessoas já abandonaram as suas casas e escondem-se agora, por entre a folhagem, perscrutando como predadores as suas vítimas .
As luzes da cidade afrontam a magia do céu estrelado.

(24/06/2017)

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