quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Impasse 


 A estrutura não está completa.

O protótipo foi corretamente executado mas falta-lhe o ímpeto. O espírito. Falta-lhe a alma.

É como que uma espécie de Pinóquio, ainda boneco de madeira, sem a intervenção da fada azul.

À noite, continua a pedir-se encarecidamente às estrelas e a todos os restantes corpos celestes luminosos que a história se transforme em algo real e palpável.

A magia é complexa, caprichosa, repleta de mistérios inexplorados e aparenta ter vontade própria mas de qualquer modo, se esta indomável força sorriu a Geppetto, por que não haveria de sorrir novamente?

Pontualmente vislumbravam-se pequenos flashes da sua essência. A majestosa nuvem de magia invadia aquele pobre universo em disrupção, e espontaneamente regava tudo à sua passagem, surpreendendo e deslumbrando por completo todos os seus intervenientes. Uma enorme chuvada tropical assolava o espaço, fertilizando cada pedacinho de alma com aquelas esperançosas e ricas águas repletas de vida. Em contrapartida, ao alvorecer, tudo voltava redundantemente à estaca zero. Aos primeiros ténues raios de luz, o feitiço era quebrado, e com ele, todo o precioso encantamento encerrado lá bem no fundo do baú da impaciência e da recordação.

Ultimamente não chove nem faz sol. As magnificas precipitações de magia cessaram por completo e o sol deixou de raiar. Um intenso nevoeiro abateu-se sobre a região, distorcendo dura e severamente toda a realidade remanescente.

Por mais que se procure erguer a mítica e alada varinha de condão da fada azul, o teimoso e obstinado grilo falante não o permite. A sua voz estridente e repetitiva acaba sempre por consciencializar-nos, confrontando-nos com a dura realidade que preferimos a todo o custo ignorar.

Agora é que são elas. Chegou-se ao tão temido impasse.


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