Era um daqueles dias que antecedem uma
enorme tempestade.
Embora não fosse palpável, sentia-se
uma atmosfera altamente carregada.
As nuvens, sobrepostas, abatiam-se sob o
céu de Outono, como que criando uma espécie de manto mesclado em
tons de azul e cinza claro.
Deslocavam-se rapidamente, gerando um
padrão nebuloso a cada instante, que por sua vez alterava
voluvelmente, toda a configuração celeste.
Os diligentes plátanos semi-nús,
tilintavam ao sabor do vento.
Verdes, amarelos, frágeis, quebradiços
e delicados.
As suas folhas caroténicas
balbuciantes, dançando ritmicamente a cada sopro alado, lembravam
um fortuito espetáculo de bailado clássico.
Os transeuntes, fustigados pelo gélido
frio que se abatera , deslocavam-se freneticamente de modo mecânico
e desprovido de animismo palpável. Caminhavam somente porque sim.
Não por possuírem qualquer tipo de vontade própria, mas porque
algo oculto e inevitável os impelia para tal.
Até mesmo o livre arbítrio se deixara
corromper pelo temporal que aos poucos se fazia anunciar.
Não só os carros circulavam ao
compasso de toda esta fúnebre melodia desconcertada, como até mesmo
o comboio, triste locomotiva amofinada, aprisionada nos seus rígidos
e pesados carris, parecia fazê-lo como uma inércia assimtomática.
Estava tudo como que em suspenso,
esperando apenas que a primeira gota de chuva se abatesse sobre o
solo, para se dar por iniciada a batalha que acordaria aquela esquálida
e esmorecida vila adormecida.
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