quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Hipócrita (Parte II)

Era um daqueles dias que antecedem uma enorme tempestade.

Embora não fosse palpável, sentia-se uma atmosfera altamente carregada.
As nuvens, sobrepostas, abatiam-se sob o céu de Outono, como que criando uma espécie de manto mesclado em tons de azul e cinza claro.
Deslocavam-se rapidamente, gerando um padrão nebuloso a cada instante, que por sua vez alterava voluvelmente, toda a configuração celeste.

Os diligentes plátanos semi-nús, tilintavam ao sabor do vento.
Verdes, amarelos, frágeis, quebradiços e delicados.
As suas folhas caroténicas balbuciantes, dançando ritmicamente a cada sopro alado, lembravam um fortuito espetáculo de bailado clássico.

Os transeuntes, fustigados pelo gélido frio que se abatera , deslocavam-se freneticamente de modo mecânico e desprovido de animismo palpável. Caminhavam somente porque sim. Não por possuírem qualquer tipo de vontade própria, mas porque algo oculto e inevitável os impelia para tal.
Até mesmo o livre arbítrio se deixara corromper pelo temporal que aos poucos se fazia anunciar.

Não só os carros circulavam ao compasso de toda esta fúnebre melodia desconcertada, como até mesmo o comboio, triste locomotiva amofinada, aprisionada nos seus rígidos e pesados carris, parecia fazê-lo como uma inércia assimtomática.

Estava tudo como que em suspenso, esperando apenas que a primeira gota de chuva se abatesse sobre o solo, para se dar por iniciada a batalha que acordaria aquela esquálida e esmorecida vila adormecida.

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