quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Glacial (parte I)

Frio.
Sentia frio.
Uma álgida e parcimoniosa sensação de esmorecimento apoderava-se do seu corpo e apropriava-se vorazmente da sua alma.
Dura.
Severa.
Inclemente.
Ininterrupta.
Sentia-se como que um metal desprotegido em contacto directo com o ar.
Claramente desapontada e amedrontada, indagava-se sobre o infeliz processo de corrosão que sobre ela se abatera.
-”O que te falta, diabos?”- interpelava-se vezes e vezes sem conta.
Tinha a impressão de viver num mundo insuficiente para si.
Era como que se no seu nascimento, tivesse escapado a um naufrágio e posteriormente tivesse sido aprisionada por um grupo de pessoas minúsculas, ao estilo Lilliput.
Gulliver dos tempos modernos, sempre desenquadrada e em busca de qualquer coisa desconhecida, vivia apenas a dois palmos da realidade.
Nada era para si suficientemente bom, quando devidamente sondado e analisado.
Os padrões de qualidade pelos quais se regia eram demasiado utópicos.
Criara, ao logo dos anos, quimeras e quimeras de esterco, onde agora se afundava cada vez mais.
E mais.
E mais.
E mais...

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