Contrariamente
a Édipo, cujo fundo era tão cristalino quanto o lago de Tahoe,
Electra
aparentava ter sido, de alguma forma, tocada pelo demónio.
Algo
de venenoso e peçonhento fluia-lhe pelas veias e apoderava-se-lhe
das entranhas.
Frágil,
inocente e bondosa eram adjectivos que jamais se juntariam onde quer
que fosse para a caracterizar. O que deveras lhe assentava, era o
sarcasmo, embrulhado em papel de escárnio, com um encarnado lacinho
de perversidade.
Agia
pois, maioritariamente, de modo dissimulado quando confrontada com
situações digamos que exóticas.
Era
fria, altiva, indómita e arrogante, muito embora penosamente
incapaz de evitar o inevitável.
Mesmo tendo consciência de que não havia nada mais desinteressante do
que a insegurança e o recalcamento, não soube precaver-se.
Sabia
tratar-se de algo supérfluo, irritante e revelador de insensatez,
mas mesmo assim optou por se expor abertamente e lamuriar-se.
Tinha
o cérebro e o coração diretamente ligados à boca, como que se de
uma torneira misturadora se tratasse.
Não
tendo tido sangue frio para parar, pensar, analisar, assimilar e agir
em conformidade com o que mais lhe convinha, cometeu um dos mais
ingénuos e perigosos erros da história da humanidade.
Não
se salvaguardou, potenciando assim a sua fraqueza, que como todos sabemos é
repulsiva desde que o mundo é mundo.
Esta
néscia insegurança, vulnerabilidade de espírito e interpretação
deturpada de uma realidade emocional, é um fogo facilmente
propagável que deverá ser impreterivelmente abafado.
Dali
por diante Electra tinha que elevar a sua auto-estima, rever as suas
crenças, priorizar, questionar e averiguar cuidadosamente a origem
de toda essa periculosidade.
Apenas
o auto-conhecimento a elevaria e extinguiria finalmente a chama da
sua incerteza.
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