sábado, 21 de setembro de 2019

Hipócrita (Parte III)

Contrariamente a Édipo, cujo fundo era tão cristalino quanto o lago de Tahoe, Electra aparentava ter sido, de alguma forma, tocada pelo demónio.  
Algo de venenoso e peçonhento fluia-lhe pelas veias e apoderava-se-lhe das entranhas.
Frágil, inocente e bondosa eram adjectivos que jamais se juntariam onde quer que fosse para a caracterizar. O que deveras lhe assentava, era o sarcasmo, embrulhado em papel de escárnio, com um encarnado lacinho de perversidade.
Agia pois, maioritariamente, de modo dissimulado quando confrontada com situações digamos que exóticas.
Era fria, altiva, indómita e arrogante, muito embora penosamente incapaz de evitar o inevitável.
Mesmo tendo consciência de que não havia nada mais desinteressante do que a insegurança e o recalcamento, não soube precaver-se.
Sabia tratar-se de algo supérfluo, irritante e revelador de insensatez, mas mesmo assim optou por se expor abertamente e lamuriar-se.
Tinha o cérebro e o coração diretamente ligados à boca, como que se de uma torneira misturadora se tratasse.
Não tendo tido sangue frio para parar, pensar, analisar, assimilar e agir em conformidade com o que mais lhe convinha, cometeu um dos mais ingénuos e perigosos erros da história da humanidade.
Não se salvaguardou, potenciando assim a sua fraqueza, que como todos sabemos é repulsiva desde que o mundo é mundo.
Esta néscia insegurança, vulnerabilidade de espírito e interpretação deturpada de uma realidade emocional, é um fogo facilmente propagável que deverá ser impreterivelmente abafado.
Dali por diante Electra tinha que elevar a sua auto-estima, rever as suas crenças, priorizar, questionar e averiguar cuidadosamente a origem de toda essa periculosidade.
Apenas o auto-conhecimento a elevaria e extinguiria finalmente a chama da sua incerteza.

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